Maldição dos segundos mandatos? A história mostra que os Presidentes dos EUA, depois da reeleição, perdem parte da sua aura e somam derrotas políticas.

Mas daí a dizer que Barack Obama está condenado a juntar-se a esse clube indesejado vai um grande passo.

É certo que o primeiro meio ano de Obama Presidente, parte II não tem sido um mar de rosas. Mas decretar já, a três anos e meio do final, o falhanço do legado Obama é, no mínimo, uma precipitação.

Se formos ver a história dos diferentes momentos de Barack Obama enquanto fenómeno presidencial, nada de novo. Afinal de contas, já foram várias as vezes em que se decretou o falhanço definitivo do atual Presidente dos EUA.

E a verdade é que, desafio após desafio, Obama foi ultrapassando essas sentenças e seguiu em frente, depois de ser dado como «politicamente morto».

Com a taxa de popularidade a cair para números próximos dos que tinha em 2010 e 2011, em fases em que muitos perguntavam se Obama ainda teria algum tipo de condições para se bater pela reeleição, Obama é visto, pela ala mais dura do Partido Republicano, como «um caso perdido».

Correntes da direita americana estão até a fazer contas a possíveis ganhos nas intercalares de 2014, sonhando com uma imensa maioria republicana que levasse, no Congresso, a um cenário de «impeachment» do Presidente, contestando a agenda de Obama em temas como as alterações climáticas ou a Reforma da Saúde.

Olhando para o tipo de retórica que tem dominado o pré-eleições para o Congresso, o «ObamaCare» voltará a ser tema forte de campanha.

Mas uma coisa é olhar para a luta política em Washington e outra, bem diferente, é perceber a estratégia de Obama para o seu segundo mandato.

Uma consulta pelo calendário faz-nos perceber que este é, mesmo, o momento «make or break» para a Presidência Obama.

O legado que Obama quer deixar quando, em janeiro de 2017, for a hora de sair da Casa Branca passa por quatro grandes ideias: reforçar a imagem da América no Mundo; diminuir a dependência dos EUA do petróleo do Médio Oriente; melhorar as condições da classe média; endereçar soluções globais para as alterações climáticas.

E a contradição pode ser esta: mesmo que boa parte do «momentum» mediático esteja a deslocar-se da Casa Branca para as eleições para o Congresso de 2014 e, depois, para as presidenciais de 2016, a verdade é que o que estará em causa, nos próximos três anos, para Barack Obama, já não será a sua popularidade eleitoral (foi isso que contou em novembro de 2012 para a reeleição), mas antes o legado que deixará nos seus oito anos de Presidência.

E o que é que vemos? Vemos uma América a recuperar economicamente (de forma lenta, mas sustentada); a manter o seu peso estratégico no Mundo (veja-se o receio que muitos países têm quando ouvem falar numa possível redução militar dos americanos nas suas áreas de influência); e a tornar-se, ela própria, uma potência energética (e, com isso, a comprar menos petróleo estrangeiro e a apostar nas energias limpas).

Será este um caminho linear? Claro que não. Os dados económicos têm evoluções contraditórias, mas a linha, nos anos Obama, é claramente positiva.

Foi essencialmente isto que o Presidente foi dizer ao «show televisivo» de Jay Leno: enquanto nas sondagens e nos «pundits» é visto como um político em queda, os dados essenciais mostram que as bases do seu legado estão em sólida construção.

Nos tempos que correm, nem sempre o que parece à primeira vista ficará escrito nos livros de história.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca