Prezo muito a minha liberdade mas prezo mais a vossa»

Nelson Mandela

«Alcançou mais do que se pode esperar de qualquer homem. Não consigo imaginar a minha vida sem o exemplo de Mandela»

Barack Obama, Presidente dos EUA, sobre Nelson Mandela

Nelson Mandela terá sido «o melhor de todos nós».

O desaparecimento do primeiro negro que presidiu a África do Sul provocou uma comoção global que dificilmente terá paralelo nos tempos de dispersão mediática em que vivemos.

O que terá levado Mandela a alcandorar-se a «herói universal»?

Talvez o facto de ter sido «o mesmo, na prisão e no palácio», como bem notou Marina Silva, antiga candidata presidencial brasileira.

Talvez o facto de, uma vez chegado ao poder depois de ter passado 27 anos na prisão, ter tido a grandeza de perdoar aos carcereiros, não caindo na tentação da vingança.

Talvez o facto de ter mostrado visão estratégica e liderança política, ao perceber que, nomeando as célebres «comissões de verdade e reconciliação», estava a impedir um banho de sangue, legalizando o «perdão» dos crimes do apartheid, desde que quem os tivesse cometido contasse a verdade.

Em tempos de agressividade e ressentimento, olhar para o legado de Mandela tranquiliza-nos e conforta-nos.

Será um olhar desviado pela memória dos anos finais, sobretudo da grandeza da sua presidência?

Muitos, nas últimas 24 horas, recordaram o passado de Mandela, antes dos anos da prisão, em que «Madiba» esteve na lista dos «terroristas» marcados pelos EUA.

Nenhum processo histórico é linear, convém que não nos esqueçamos disso. O próprio Mandela resolveu-nos o dilema ético: «Não sou santo, a menos que a definição de santo seja daquele que que é pecador mas que continua a tentar...»

Barack Obama foi dos primeiros líderes mundiais a reagir à more de Nelson Mandela. E não se tratou de uma casualidade: o 44.º inquilino da Casa Branca terá sido o político que melhor soube herdar a inspiração de Mandela.

Assumiu-a na sua história política, mas é o próprio Obama a admitir que dificilmente chegará ao nível de Madiba. «Não consigo imaginar a minha vida sem o exemplo de Mandela», recordou ontem o Presidente dos EUA.

No discurso de aceitação do Nobel da Paz, em dezembro de 2009, Obama citou Mandela como um dos «grandes líderes que receberam esta distinção», assumindo que, por comparação, ainda tinha conseguido poucos feitos, perante o que Mandela já lograra.

As semelhanças na retórica inspiradora são notórias e foram alvo de análise profunda, sobretudo na primeira eleição presidencial de Barack, em 2008.

Os analistas de expressão facial também detetam algumas parecenças entre Mandela e Obama. Mas daí até se extrapolar para a herança política vai um enorme passo.

Há dados históricos objetivos: Mandela foi o primeiro negro presidente da África do Sul; Obama o primeiro negro líder dos EUA. Demograficamente, com uma grande diferença: a África do Sul tem uma esmagadora maioria negra; nos EUA, apenas 11% dos eleitores têm essa cor de pele.

Será fácil cair na tentação de declarar que, enquanto a figura de Mandela é hoje adorada em todo o Mundo, Obama carrega, neste momento, o fardo da desilusão e da impopularidade.

Convém, por isso, pôr os dados em perspetiva: Mandela, como presidente, teve também muitos falhanços (não conseguiu travar a propagação da SIDA; as desigualdades raciais e sociais na África do Sul são cada vez maiores).

Mas há uma noção, mais subjetiva e profundamente generalizada, de que Mandela atingiu uma autoridade moral e uma e uma capacidade de consenso que Obama assumidamente ambiciona e procura, mas que, no exercício da presidência, tem vindo a falhar nos últimos cinco anos.

Também por isso, Mandela será, para o Presidente doa EUA, um exemplo nunca alcançado.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»