22 de novembro de 1963. Faz hoje 50 anos. Meio século pode ser muito tempo na vida de uma pessoa (foi mais, por exemplo, do que os anos que viveu JFK), mas para um mito que dura para a eternidade é apenas um intervalo na história.

John Fitzgerald Kennedy, primeiro católico a ser eleito Presidente dos Estados Unidos, foi o presidente mais carismático da história da América.

Costuma dizer-se em Portugal que «mais vale ser carismático do que competente». O dilema não podia assentar melhor no antigo senador democrata do Massachussets, mais jovem Presidente eleito da história americana (Thedodore Roosevelt era mais novo quando tomou pela primeira vez, mas chegou à Casa Branca sem eleição).

O carisma era a característica mais notória em JFK. Pela juventude. Pelo poder de atração que exercia. Pela história familiar única que apresentava (filho de embaixador americano em Londres, irmão de um herói de guerra morto nos céus da Europa, ele próprio também herói de guerra, clã proveniente da Irlanda, com influência política e riqueza abastada na Nova Inglaterra).

Além do carisma, a marca de JFK passou pela vontade de rutura.

A forma como, sendo católico, desafiou o paradigma dominante dos protestantes na política e na sociedade americana (um dos melhores discursos da sua vida foi quando, assumindo-se católico, exaltou a separação da igreja com o estado como marca definidora da América, perante sala repleta de políticos e pastores protestantes) foi decisiva nessa capacidade de inovar.

Foi, aos 35 anos, um dos mais jovens senadores da história do Capitólio. E, aos 43, desafiou o favoritismo de Nixon, na altura o político mais respeitado da América, batendo-o por uma unha negra e graças a uma campanha magistralmente dirigida pelo irmão, Bobby, que cinco anos depois viria a ser, também ele, candidato democrata e, também ele, assassinado a tiro.

O assassinato de há 50 anos, na Dealey Plaza , em Dallas, está como imagem-choque na cabeça de todos os que têm na história americana parte da sua memória afectiva. A cabeça ensanguentada do Presidente a prostrar-se para a frente, já sem vida. A postura corporal de Jackie, num misto de pânico e medo por ser atingida também.

A morte de John Kennedy, faz hoje meio século, foi o início do fim da inocência americana. Os EUA viviam, naquele preciso momento, em estado de graça com o seu jovem Presidente.

O cenário idílico escondia os «cisnes negros» que aí viriam: aquele fora, apenas, o primeiro assassinato a tiro de um líder carismático americano em apenas cinco anos. A 4 de abril do ano seguinte, 1964, seria a vez de Martin Luther King. Na noite de 5 para 6 de junho de 1968, data das primárias democratas na Califórnia, Bobby Kennedy, irmão de JFK, conheceria o mesmo destino.

Jack Kennedy era a contradição levada ao extremo: o seu sucesso político baseou-se na sedução e na ilusão de felicidade e esperança; na verdade, teve vida marcada pelos obstáculos de uma saúde muito precária (que o levou a passar longas temporadas hospitalizado).

A presidência Kennedy parecia anunciar a aurora do sonho americano: os EUA impunham-se perante a outra superpotência rival, a URSS comunista e lançavam-se à conquista da Lua (numa das muitas ironias que a política tem, seria Nixon, em 1969, a colher os louros do caminho espacial iniciado por JFK).

Dramaticamente, o que o assassinato de há meio século anunciou foi que a história da América é, essencialmente, uma história de violência.

Ficou o mito e uma boa parte dele foi pasto para líderes americanos que se seguiram. Um deles é o atual inquilino da Casa Branca: chama-se Barack Obama e, tal como Jack foi o primeiro católico, conseguiu romper barreiras e tornou-se no primeiro negro Presidente dos EUA.

«God bless the United States of America».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca