No campo democrata, quase todos já se dizem «prontos para Hillary Clinton».

As sondagens mostram que a vantagem da ex-secretária de Estado para a corrida à nomeação democrata para 2016 é demasiado grande para poder ser revertida (faltam dois anos e meio para a eleição geral, pelo que a decisão das nomeações partidárias já começa a mexer).

É claro que nisto de eleições presidenciais na América, nunca se sabe o que pode acontecer.

Muitos analistas têm recordado, nos últimos meses, que para a nomeação democrata de 2008, Hillary chegou a ter avanço considerável sobre Obama e Edwards, mas acabaria por ser Barack o nomeado.

Sendo essa uma constatação dos factos, a verdade porém é que a diferença agora é de mais do dobro: Hillary nunca teve vantagem superior a 25/30 pontos em 2007/2008. Para 2016, parte com avanço entre 50 a 70 pontos percentuais.

Nem sequer se vislumbra uma ameaça séria ao «consenso Hillary» junto das bases democratas (que parecem dispostas a dar a Hillary a hipótese que só não deram já em 2008 porque entretanto apareceu o fenómeno Obama) e nas elites do partido (basta atentar a inúmeras declarações, nos últimos meses, por parte de governadores democratas, membros do Congresso e até antigos candidato presidenciais e/ou membros das Administrações Clinton e Obama.

Hillary parte com o favoritismo, os apoios, a máquina (a que usou na campanha Hillary 2008 e uma boa parte da máquina eleitoral de Obama 2008 e 2012) e o dinheiro: há Super PACS bem financiadas que já estão no terreno a organizar eventos de angariação de fundos, com nomes fortes dos democratas como cabeças de cartaz.

O que pode correr mal, então, ao projeto «Hillary for President 2016»?

Em primeiro lugar, não é certo que Hillary Clinton tenha saúde para enfrentar uma coisa violenta como uma campanha presidencial americana. São quase dois anos a dormir muito pouco, a viajar de estado para estado, num país enorme.

Hillary, que no final do mandato como secretária de Estado acusou alguns problemas de saúde preocupantes, não tem dado mostras de esse vir a ser um ponto inibidor de uma candidatura. Mas terá 69 anos em novembro de 2016 e, caso seja eleita, arranca para possivelmente oito anos que só terminarão quando Hillary já estará a caminhar para a casa dos 80.

Será um problema para ela, depois de dois mandatos do quarto mais jovem Presidente da história americana?

Se for, não é certamente o único. Uma parte da direita americana, catalisada pelo fervor hostil da FOX News, tem recordado ao limite o «caso Bengasi», ocorrido em setembro de 2012, e que redundou no assassinato do então embaixador norte-americano na Líbia e doutros três funcionários diplomáticos americanos.

A então secretária de Estado Hillary Clinton é acusada por parte da direita de não ter feito tudo para proteger os diplomatas americanos no terreno e de não ter sido conclusiva no inquérito ocorrido posteriormente no Congresso.

Nos últimos dias, de forma um pouco descontextualizada, «ressuscitou»... Monica Lewinsky, que nos anos 90 quase levou Bill Clinton ao «impeachment». Mera coincidência? Difícil de acreditar.

O reaparecimento mediático de Monica Lewinsky pode ter segundas intenções políticas, possivelmente para recordar aos mais esquecidos e contar ao eleitorado mais jovem esse episódio tortuoso para a história política e pessoal do casal Clinton. Mas Hillary já deu provas mais do que suficientes que está preparada para isso e para muito mais.

Ganhe ou perca em novembro de 2016, ela parece ter tudo para vir a ser a primeira mulher a liderar o mais poderoso país do Mundo.

A piada do Presidente Obama no jantar anual com os correspondentes da Casa Branca é reveladora: «Quando me for embora, talvez a Fox News tenha dificuldade em garantir que Hillary Clinton nasceu no Quénia...»

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»