«Grandes nações precisam de princípios organizadores. 'Não fazer coisas estúpidas' não é um princípio organizador»

«Penso que o Presidente Obama tem tentado comunicar com o povo Americano, dizendo-lhe que a América não vai fazer alguma loucura. Sentei-me em muitas salas com o presidente. Ele é ponderado, incrivelmente inteligente e está apto a analisar sob diferentes ângulos sobre os múltiplos problemas do mundo. Penso que ele tem sido cauteloso porque sabe o que herdou, tanto as duas guerras como a frente económica e investiu muito capital e energia tentando puxar pelo melhor de nós. Então, penso que isso de 'não se fazer coisas estúpidas' é também uma mensagem política. Não é uma visão do mundo, se faz sentido definirmos isso»

HILLARY CLINTON, entrevista à revista «The Atlantic»

Hillary Clinton tem estado cada vez mais no radar mediático e político na América.

A secretária de Estado do primeiro mandato de Obama, senadora por Nova Iorque entre 2001 e 2009 e Primeira Dama dos EUA entre 1993 e 2001, ainda não oficializou a sua candidatura presidencial para 2016, mas falta só mesmo a declaração formal.

Basta vê-la no «Daily Show» do Jon Stewart a aceitar entrar num divertido jogo de pergunta-resposta sobre o seu futuro profissional («prefere um escritório com uma forma plana ou com curvas e esquinas?») ou mesmo a fazer comentário político às opções desta administração e às tensões de Putin na Ucrânia e de Israel em Gaza, em entrevistas aos principais programas da especialidades, nas grandes TV americanas.

Com uma vantagem de mais de 50 pontos em todas as sondagens para a nomeação presidencial democrata (e de 10/15 para a eleição geral, perante todos os possíveis opositores republicanos), Hillary é já a protagonista inevitável da alta política americana.

É claro que até novembro o foco da política interna americana estará nas ¿midterms¿ para o Congresso, com uma dúvida fundamental a retirar: será que os democratas vão conseguir manter a curta vantagem no Senado ou, como dizem algumas sondagens, cedem mesmo o controlo das duas câmaras legislativas aos republicanos?

Mas essa é uma inquietação que, na verdade, assalta bem mais ao Presidente Obama do que à «presumível» candidata democrata para 2016. É que se esse pior cenário para o partido do Presidente se confirmar no Congresso, Obama pode vir a ter dois anos penosos no ponto de vista da sua (já bem difícil) agenda legislativa.

Mas as intercalares são só daqui a três meses e sem dúvida que o foco das preocupações de Washington tem estado em três gigantescos problemas de política externa: a Ucrânia, Israel/Gaza e o Iraque.

E nestes três planos, o Presidente Obama tem tido especiais dificuldades em fazer valer uma posição clara de uma América dominante e que continue a ser o «ás de trunfo» da política internacional.

Na Ucrânia, mesmo depois do abate do avião com fortíssimos indícios de culpa dos rebeldes pró-russos, Putin continua a ser ameaça crescente; em Israel/Gaza, Obama manteve posição considerada por setores americanos e israelitas excessivamente equidistante; no Iraque, o avanço do ISIS tem aumentado exponencialmente o número de vítimas e obrigou o Presidente a autorizar bombardeamentos a zonas controladas pelos fundamentalistas sunitas (com fornecimento de material aos curdos), em claro contraciclo da vontade política de Obama de «sair do Iraque».

É significativo que até Hillary, em entrevista a Jeffrey Goldberg na «The Atlantic», tenha querido demarcar-se do Presidente em matérias de política externa.

Hillary quis mostrar, nesta fase, que tem visão mais dura que Obama sobre Israel/Gaza (defendendo mais claramente a posição israelita), e deixa entender que, se fosse Presidente, teria apoiado de forma mais efetiva a oposição a Assad na Síria.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»