Hillary Clinton vai ser a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos da América?

É possível, mas está longe de ser uma certeza.

A 27 meses das eleições presidenciais, os dados são idênticos ao que tem acontecido desde o início do ano: Hillary tem vantagem tão gigantesca no lado democrata (50 a 60 pontos de diferença sobre qualquer eventual adversário nas primárias do seu partido) que nos «media americanos» já é apresentada como «presumível nomeada presidencial» para 2016.

Do lado republicano, cenário oposto: vários candidatos, nenhum deles a conseguir assumir condição de «frontrunner».

Perante este quadro, Hillary, mesmo sem ter que responder «sim» à pergunta que já lhe fizeram mil vezes («vai ser candidata à presidência em 2016?»), já começou o seu périplo mediático para lançar a candidatura.

No tal estatuto não muito definido, mas repetido vezes suficiente para ter vida própria, de «presumível candidata democrata», Hillary toma posições sobre os temas que dominam a agenda da alta política americana. Lança críticas. Dá sugestões. Provoca reações de adversários e apoiantes. Sim, isso mesmo: como se já fosse a nomeada presidencial com legitimidade do seu partido para batalhar pela sucessão de Obama.

Como antigo elemento de uma Administração Obama, Hillary tem tido, em termos gerais, o cuidado de mostrar concordância com o rumo que tem sido tomado pelo Presidente.

Mas essa atitude teve uma mudança notada por todos, na entrevista dada à «The Atlantic», já aqui abordada no «Histórias da Casa Branca».

Enquanto no Iraque e na Síria o ISIS escalava perigosamente a violência das suas ações, e antes ainda da divulgação do vídeo da decapitação do jornalista americano James Foley, Hillary lançou uma espécie de «bomba» política, ao demarcar-se do «don¿t do stupid stuff» (não façam coisas estúpidas), frase aparentemente redutora quando se fala de tema tão complexo, e que chegou a ser apontado por Obama como princípio orientador em política externa.

«Grandes nações precisam de princípios organizadores. 'Não fazer coisas estúpidas' não é um princípio organizador», comentou Hillary, nessa entrevista. Os analistas, desde aí, têm reforçado esse distanciamento.

Será que a futura-candidata-presidencial Hillary já sente a necessidade de escolher a herança dos anos Obama (separando o que não concorda e querendo ficar apenas com o que considera positivo?).

Chris Cillizza, no Washington Post, observa: «Hillary Clinton fez uma jogada estratégica para começar a distanciar-se da política externa do Presidente Obama. Falhou.»

A equipa de Hillary, preocupada com as reações do «Mundo Obama» das críticas dela ao «não façam coisas estúpidas», libertou uma declaração para acalmar tensões. «A secretária Clinton ligou ao Presidente para assegurar que ele saiba que nada do que ela disse tinha como intenção atacá-lo a ele, a alguma coisa que tenha feito, ou às suas políticas, ou à sua liderança», garantiu o porta-voz de Hillary Clinton, Nick Merril.

Um dos mais proeminentes membros do tal «Mundo Obama» é David Axelrod, talvez a pessoa mais próxima do Presidente, antigo conselheiro sénior da Casa Branca e principal estratega das duas eleições presidenciais de Obama.

Em pleno rescaldo do «episódio Hillary/entrevista à Atlantic», «Ax», como lhe chama Obama, fez twitt para esclarecer: «Apenas para clarificar: «Don¿t do stupid stuff» significa coisas como Iraque na primeira intervenção, o que foi uma coisa trágica». A observação não é ingénua: Axelrod, que conhece ao pormenor todas as possíveis fragilidades do percurso político de Hillary (foi ele que estudou a forma de ataca-la nas primárias de 2007/2008), tentou lembrar, de forma indireta, que a então senadora Clinton não se opôs, na votação no Capitólio, à intervenção de Bush no Iraque, em 2003.»

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»