Era a mais antiga e mais respeitada jornalista política norte-americana. Durante meio século, teve lugar cativo na primeira fila na conferências de Imprensa na Casa Branca.

Helen Amelia Thomas, nascida a 4 de agosto de 1920, em Winchester, Kentucky, morreu no sábado, com 92 anos, vítima de doença prolongada.

Quase até ao último dia, manteve-se no ativo, polémica e acutilante, incómoda e direta. Uma imagem de marca da sétima de nove filhos de um casal de libaneses que emigrou de Tripoli (então território sírio) e embarcou nos EUA pela Ellis Island (como tantos outros o fizeram no início do século XX).

Foram sete décadas no jornalismo, desde 1943. Durante meio século, teve direito a um lugar no primeira fila nas conferências de Imprensa na Casa Branca, sem medo de fazer perguntas incómodas a dez presidentes americanas (o último deles, Barack Obama).

A teimosia em não fazer cedências ao discurso oficial da Casa Branca fez com que levasse ao desespero vários porta-vozes das administrações americanas. Quando viam Helen pedir a palavra, sabiam que vinha aí pergunta difícil para o poder político.

No elogio após saber a notícia da sua morte, o Presidente Obama disse de Helen Thomas que ela deixa uma «herança de firmeza e tenacidade. Tinha uma crença feroz de que a nossa democracia funciona melhor se as perguntas difíceis forem feitas, de modo a manter sob forte escrutínio os nossos líderes políticos».

«Helen foi verdadeiramente uma pioneira e manteve os pés dos Presidentes (incluindo os meus) bem assentes na terra», referiu Obama.

A expressão «pioneira» não foi um exagero retórico do Presidente. Helen foi a primeira repórter política na Casa Branca. Era uma instituição do meio político americano. Mas nunca foi consensual.

Em 2010, já quase com 90 anos, foi apanhada a dizer, em off, que «os judeus deviam sair da Palestina e voltar à terra deles».

Helen pediu desculpa pelo deslize e explicou mais tarde: «Aquelas observações não refletem os meus sentimentos em relação à vontade de paz no Médio Oriente. Ela só acontecerá quando as diferentes partes em conflito reconheçam a necessidade de se respeitar mutuamente. Que esse dia surja em breve».

Apesar das desculpas. a polémica custou-lhe o afastamento das conferências de Imprensa em DC.

Trabalhou para a United Press International (desde a década de 60, durante a presidência Kennedy). Escreveu três livros, todos sobre a experiência de jornalismo político na Casa Branca.

Que visão tinha Helen sobre as obrigações de um Presidente? «Cobri sempre jornalisticamente o Presidente dos EUA com a noção de que ele é sempre o máximo e último responsável».

À luz deste princípio, que a guiou do início ao fim, para Helen não havia limites para se colocar uma questão, por muito delicada e incómoda que ela fosse. Dentro deste espírito, não poupou a herança de George W. Bush, sobretudo pela forma como este reagiu ao 11 de Setembro e avançou para as guerras. No rescaldo dos dois mandatos do 43.º Presidente dos EUA, Helen rotulou George W. Bush de «pior presidente de sempre».

Mas a Administração Obama também não escapou à mira exigente de Helen. Já quase nos 90 anos, assumiu um episódio ainda hoje recordado em Washington.

Numa fase inicial do primeiro mandato em que a Reforma da Saúde parecia comprometida, Helen Thomas repetia questões incómodas a Robert Gibbs, que fazia os briefing diários da equipa de Obama.

Robert teve uma a observação imprudente: «Se já sabe que não posso dizer mais do que isso, porque é que insiste em fazer-me a pergunta?»

Helen atirou: «Porque quero que a sua consciência o incomode».

Os restantes jornalistas desataram a rir e o respeitável Robert Gibbs ruborizou, sem retaliação possível.

Helen Thomas vai fazer falta em Washington.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca