«Os esforços que está a fazer para ser Presidente estão a causar sérios danos ao país»

Harry Reid, líder da maioria democrata, sobre o comportamento de Ted Cruz, senador republicano do Texas, mentor da oposição do Tea Party ao acordo bipartidário que desbloqueou o «shutdown» e aumentou o teto da dívida

«Não acredito que esteja a dizer isto, mas sim, desejo que os democratas passem a controlar a Câmara dos Representantes em 2014»

Taegan Goddard, autor do blogue «Political Wire», conservador moderado, conselheiro de Donald Riegle, antigo senador republicano do Michigan

O pior foi adiado em Washington, mas a dupla crise das últimas três semanas deixou marcas profundas na direita americana.

A derrota é assumida por todos, mas a forma de lidar com ela já é bem diferente.

Nunca como agora se notaram as clivagens entre quem considera inevitável negociar com o Presidente e com os democratas, aceitando as regras do jogo e percebendo que «as eleições têm consequências», e quem deseja passar por cima dos resultados eleitorais.

Simplificando: o Partido Republicano sai derrotado e dividido desta dupla. A ambiguidade de John Boehner, «speaker» do Congresso, nos últimos dias, deu conta da quadratura do círculo que era obrigado a fazer, para manter o unido o «caucus» republicano: o congressista do Ohio não queria, de forma alguma, ser responsável por levar a América para o abismo, mas sabia, ao mesmo tempo, a ameaça que os radicais do seu partido constituíam, presos ao dogma de «travar o ObamaCare».

Taegan Goddard, conservador moderado, autor do blogue «Political Wire», conselheiro de Donald Riegle (antigo senador republicano do Michigan), não poupa nas críticas ao comportamento de oposição cega que tem dominado a acção dos republicanos no Congresso, durante ao anos Obama: «Não acredito que esteja a dizer isto, mas sim, desejo que os democratas passem a controlar a Câmara dos Representantes em 2014», escreveu no seu blogue.

Para Taegan Goddard, esta tem sido uma estratégia falhada para os interesses do conservadorismo americano: «Um ano depois do duelo presidencial Obama-Romney, 2013 foi um ano perdido para o Partido Republicano. Melhorou o seu problema de imagem? Não. Resolveu as dificuldades que tem em eleitorados como as mulheres ou as minorias sociais? Não. Tem uma posição mais forte do que tinha há um ano, em outubro de 2012? Não?»

Não será exagerado anunciar o clima de guerra civil na direita americana.

Além de dar a Obama um triunfo de que necessitava para recuperar fôlego político até ao final do segundo mandato (o Presidente já anunciou que vai agora concentrar-se na Reforma da Imigração), os estilhaços do acordo bipartidário acentuaram diferenças insanáveis no seio do GOP.

Os republicanos moderados, com uma visão mais tradicionalista do jogo de Washington, foram forçados a recuar nos últimos anos, tamanha era a ferocidade do Tea Party. Mesmo a nomeação presidencial de Mitt Romney foi «infetada» por influências do lado mais radical dos republicanos, que forçaram o antigo governador do Massachussets a guinar à direita em muitas das suas posições.

Essa visão perdeu quase todas as batalhas políticas dos últimos anos: Obama foi eleito Presidente por duas vezes; o ObamaCare foi aprovado e relegitimado.

É certo que, em 2010, o Tea Pary conseguiu ocupar uma boa percentagem dos lugares republicanos no Congresso. Mas a forma como os americanos penalizaram o comportamento irresponsável dos radicais nesta crise (todas as sondagens apontam para que a culpa dos prejuízos de 16 dias de paralisação governamental foi dos ala extremista) coloca um grande dilema à direita americana: o que fazer para as eleições intercalares de 2014, negociar com o Presidente ou namorar com o Tea Party?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca