Há uma tempestade perfeita a formar-se em Washington. Já todos a pressentiram, mas parece que ninguém quer assumir as culpas, se ela acontecer.

Ao «government shutdwon», que já dura há uma semana (com um custo estimado de 300 milhões de dólares por dia), junta-se, numa perturbadora contagem decrescente, o atingir do teto da dívida.

O Departamento do Tesouro aponta o «deadline» de 17 de outubro: é já daqui a dez dias.

Nos anos Obama, por duas vezes a América viveu a vertigem de poder chegar a um ponto de não poder pagar os seus compromissos: no verão de 2011 e no último dia de 2012.

Nessas duas vezes, o pior foi evitado à última e depois de concessões junto da maioria republicana na Câmara dos Representantes.

Essas duas crises deixaram mossas nas relações (que nunca foram particularmente fáceis) de Obama com o líder republicano no Congresso (John Boehner).

Boehner, um congressista do Ohio, não está numa posição fácil. Pretende manter as credenciais conservadoras, de quem representa a América profunda, do «midwest» rural e tradicionalista. Mas também sabe que muito pouco o liga ao radicalismo cego do Tea Party.

A verdade é que a nova «tempestade perfeita» que se forma em Washington não dá azo a meias medidas ou mais adiamentos. Há escolhas muito difíceis que, nos próximos dias, os principais atores políticos na América vão ter que fazer: o Presidente estará na disposição de adiar a implementação do ObamaCare (a sua maior conquista ideológica), em nome de evitar uma catástrofe económica e política?; Boehner estará em condições de aceitar um acordo com os democratas e com a Casa Branca, que evite o incumprimento, sem ser imediatamente demitido pela ala radical do seu partido, que tem os votos suficientes para, pela primeira vez, despedir um «speaker» a meio de uma legislatura?

É fácil de imaginar que anda tudo muito nervoso na Casa Branca e no Capitólio. Há pouco tempo para negociar e demasiado em jogo para que se continue a arriscar.

Obama tem aumentado o tom da crítica em relação ao «radicalismo de um fação de um só partido, que controla uma só câmara e que não tem o direito de chantagear e paralisar todo um sistema e todo um governo, com prejuízo para milhões de americanos, gente real, com problemas reais».

A Casa Branca está a jogar todas as fichas na pressão da opinião pública, acreditando que os radicais do Tea Party se sintam na necessidade de recuar. Mas o passado recente é muito preocupante em relação ao sucesso dessa estratégia.

O ódio da ala direita do Partido Republicano a Obama e, sobretudo, à Reforma da Saúde, aprovada em março de 2010 (com um Congresso, na altura, de controlo democrata) é tão grande que parece sobrepor-se aos receios que muitos republicanos também têm em levar a América para o «default».

Ted Cruz, o famigerado senador do Texas que falou 21 horas seguidas contra o ObamaCare, resume assim esse radicalismo: «Nada pode ser pior do que essa lei. Faremos tudo para travá-la».

Obama também tem jogado com as «consequências desastrosas que o incumprimento teria em Wall Street e nos mercados». «Seriam talvez piores do que a crise de 2008», avisou o Presidente. Obama exorta os republicanos da Câmara dos Representantes a «terminarem com esta farsa e votarem o orçamento», para que o sistema volte a funcionar.

Mas, por estes dias, a noção de «normalidade» há muito que deixou de existir na política americana.

No meio de tantas inquietações, há esperança: muitos republicanos já mostraram que estão dispostos a votar com os democratas, de modo a que, pelo menos, se permita o aumento do teto da dívida, num acordo que contorne a questão do ObamaCare.

É que o jogo do «passa culpas», habitual em política, pode tornar-se uma coisa absolutamente secundária se, daqui a dez dias, o pior ainda não tiver sido evitado.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca