Barack Obama prepara o seu antepenúltimo discurso sobre o Estado da União (terça à noite) e está a arrancar o segundo ano do segundo mandato presidencial.

O «hope and change» há muito que já lá vai. É certo que, na política americana, os ciclos são cada vez mais curtos. Mas Obama tem exatamente três anos para deixar um legado.

A certidão de óbito política do 44.º Presidente dos EUA já foi passada várias vezes. Mas continua a ser prematuro que ela seja selada em definitivo.

Obama quer «ação»: «E sempre que isso não for possível com o Congresso, exigirei que ação seja feita a partir da Casa Branca», exortou o Presidente, no discurso semanal em vídeo, do passado domingo.

Há um ano, o discurso do Estado da União foi marcado pela «concretização». Nos meses seguintes, a Câmara dos Representantes foi bloqueando/adiando as prioridades do Presidente: imigração, «gun control», subida do salário mínimo, prolongamento dos subsídios de desemprego.

Com o acordo bipartidário no Congresso para assegurar o orçamento, não se prevê nova crise da dimensão do «shutdown» de 16 dias que paralisou Washington em outubro passado.

A extensão do subsídios de desemprego deverá ser um dos temas fortes do discurso de Obama na próxima terça: «O Congresso tem que passar esta legislação de imediato! Há 14 milhões de americanos que estão à espera dessa aprovação».

Este tipo de apelos tem dominado a relação tensa entre Casa Branca e Câmara dos Representantes republicana. A escassa maioria democrata num Senado vulnerável a «filibusters» (minorias de bloqueio).

Há, por isso, uma preocupação eleitoral a dominar os próximos meses da agenda do Presidente.

É errada a ideia de que Obama já não tem tempo deixar a sua marca. Em três anos, muito pode ser conseguido. Mas para que Obama possa atacar a reta final do seu mandato em boas condições de concretizar as prioridades, será essencial que os democratas pelo menos mantenham a vantagem que têm no Senado. E seria conveniente que obtivessem o controlo da House (ou, pelo menos, reduzissem a diferença para os republicanos).

Mesmo assim, não é de prever que Obama tenha um envolvimento muito direto na campanha para as intercalares.

A agenda da Casa Branca, e a sua estratégia de comunicação, tem sido, desde 2010, cada vez mais independente dos temas que dominam o registo dos democratas. O desastre eleitoral de novebembro de 2010 foi, nessa medida, exemplar: muitos congressistas e senadores democratas sentiram-se prejudicados eleitoralmente por questões como o «ObamaCare»; o Presidente perdeu em definitivo o «estado de graça» com a hecatombe dessas «midterms» e acabou por conseguir a reeleição, dois anos depois, à custa dos seus créditos políticos.

Com a implementação do ObamaCare a começar a dar os seus frutos (e com a crise comunicacional a esvair-se com a passagem do tempo), é de prever que o Presidente recentre o foco da sua mensagem na recuperação económica (sem dúvida o maior trunfo dos cinco anos de sua presidência): «Na nossa vasta economia, há claros sinais de recuperação. Em parte, isso deve-se aos benefícios do Affordable Health Care Act, que reduzem os custos da saúde», destacou o Presidente na sua mensagem semanal.

Por isso, Obama tenciona destacar, no Estado da União, a economia como um trunfo: «Vou mobilizar o país em torno da missão de assegurar que a nossa economia ofereça a todo que trabalham arduamente uma justa oportunidade de atingir o sucesso».

Doyle McManus, no LA Times, nota: «A economia está finalmente a recuperar, saída das cinzas da Grande Recessão. As previsões apontam para um crescimento de 3%, com o desemprego a caminhar para os 6,5%. Os Presidentes levam com as culpas quando a economia está mal. Mas também devem receber créditos políticos quando a economia mostra melhorias».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor ddos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»