O relógio está a contar e, como notou Obama, num sinal de desespero nada normal para o Presidente com fama de ser o mais «cool» entre todos os que já ocuparam a Casa Branca, parece que muitos políticos com responsabilidades em Washington ainda não perceberam que estamos a pouquíssimo tempo de atingirmos o precipício.

Desta vez, não é só o «precipício orçamental» que, na última passagem de ano, assustou o sistema de poder em Washington.

Dez meses depois da quase queda na ravina orçamental (evitada horas depois de se ter pisado o «deadline»), desta vez o sistema está mesmo sob sequestro.

Democratas e republicanos no Congresso foram agravando divergências, em vez de trabalhar em consensos.

O Presidente, que no primeiro mandato se mostrou especialmente aberto ao compromisso com o outro lado («reach across the aisle»), avisou na tomada de posse do segundo que era tempo de concretizar.

Obama, estudioso do legado dos antecessores, sabe perfeitamente que os presidentes em segundo mandato trabalham em «contra-relógio» para deixarem a sua marca.

Ora, o que é dramático neste duplo impasse em Washington («government shutdown» e teto da dívida a apenas seis dias de ser atingido) é que que o objetivo de quem está a criar este «sequestro» não é evitar o pior, mas antes causar o maior dano possível à presidência de Obama.

Do ponto de vista do jogo político, isso chega a ser quase irracional.

Os estudos de opinião são claros: todos estão a perder com esta dupla crise. O Partido Republicano está em mínimos históricos de popularidade (sondagem Gallup fala em apenas 28% dos americanos a vê-lo de forma favorável), mas Obama para lá caminha (taxa de aprovação do Presidente nos 37%, muito pouco acima do mínimo do verão de 2011, após a cedência feita a Boehner, para evitar o «default»).

A proposta de Bohner de adiar por seis semanas o «deadline» do teto da dívida, a fim de dar tempo até 22 de novembro a democratas e republicanos de chegarem a um acordo orçamental (tentando assim resolver as duas crises no próximo mês e meio) foi recusada por Obama e democratas.

Mas só o facto de ter havido conversa já indica que a Casa Branca está disposta a fazer algum tipo de cedência.

Paul Krugman, em brilhante artigo no «New York Times», chamou aos congressistas do Tea Party «rebels without a clue». Eles não têm sequer uma pista do mal que estão ao fazer ao sistema e dos riscos que estão a criar para a América e para o Mundo.

É neste enquadramento político quase esquizofrénico, em que todos perdem com uma crise cuja dimensão ninguém tem coragem para antecipar verdadeiramente, que os EUA se encontram.

«Bomba atómica», chamou-lhe Warren Buffett. «Muito pior que a falência do Lehman Brothers», avisou Obama. «Caos», «derrocada», «terramoto muito pior que 2008», previram analistas em Wall Street.

No Capitólio, John Boehner (por estes dias um dos homens em posição mais incómoda no mundo da política), vai repetindo que não desejou este «government shutdown» e tenta garantir que fará tudo para evitar o «default».

Mas como, se não se consegue libertar das amarras dos seus congressistas mais radicais?

O «speaker» do Congresso, que dias depois da reeleição de Obama assumira que os resultados das eleições de novembro de 2012 confirmaram a legitimidade do ObamaCare, e manteve sempre a posição de que não pretendia um «government shutdown», está a perder a toda a linha.

Sem liderança efetiva com quem possa negociar do lado republicano, o que pode fazer Barack Obama? Dramatizar.

O Presidente tem subido o tom do alerta e, recusando-se a parar por completo o seu mandato, avançou para a nomeação de Janet Yellen para o Fed.

Os próximos dias vão ser de tensão máxima em Washington.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca