«Não quero pôr o carro à frente dos bois. Não temos ainda uma estratégia para combater o ISIS. Acho que o que vimos nas últimas notícias e nos últimos relatórios sugere que alguns tipos estão a chegar um pouco mais à frente donde estamos... E temos que ter a certeza que temos planos claros e é isso que estamos a desenvolver. Vou consultar o Congresso, para ter a certeza de que as suas vozes dos congressistas são ouvidas. Mas não faz sentido que exija ação ao Congreso antes de saber exatamente o que é preciso fazer para que o trabalho saia bem feito»

BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos

Para republicanos como John McCain, «não ter uma estratégia para combater o ISIS» é uma das razões para o fracasso americano no Iraque e na Síria.

Mas para o Presidente trata-se de mera precaução.

O excerto com que esta crónica começa mostra, ao limite, a estratégia de contenção de Obama para a situação mais explosiva do tabuleiro internacional.

Por parte dos congressistas republicanos, a pressão não podia ser maior. Mitch McConnel, líder da minoria republicana no Senado, voltou a encostar o Presidente à parede: «É urgente que a administração desenvolva uma estratégia regional, trabalhe com os nossos aliados, derrote o ISIS e use em pleno a sua autoridade para atacar a força do inimigo».

Na Ucrânia, já se percebeu que nem os receios dos serviços de inteligência americanos sobre invasão que esteja a ser preparada pela Rússia (que nem as conversações de Minsk entre Poroshenko e Putin, aparentemente com sinais positivos quanto a um futuro cessar-fogo, dissiparam), fará a América de Obama avançar para uma situação de confronto bélico com Moscovo.

Outro tipo de confronto, a nível diplomático, já decorre há uns meses e teve exemplo especialmente vincado na intervenção de Samantha Power, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, em Conselho de Segurança da ONU, sobre a Ucrânia: «A Rússia, em matéria de Ucrânia, tem dito tudo menos a verdade. Tem manipulado. Tem ocultado. Tem mentido descaradamente. Por isso, temos aprendido a avaliar a Rússia pelas suas ações e não pelas sua palavras. E nas últimas 48 horas, as ações dos russos na Ucrânia têm falado de forma mesmo muito sonora».

A embaixadora Power referia-se à entrada ilegal de tropas russas em espaço ucraniano, agravada nos últimos dias, enquanto, na Bielorrússia, Poroshenko e Putin até pareciam começar a entender-se. Tremenda ambiguidade.

No plano ucraniano, a estratégia da Administração Obama tem sido, por isso, dual: quase nada em termos bélicos, quase tudo na agressividade diplomática e nas sanções económicas (já a um nível significativo para a elite de Moscovo, com consequências internas no apoio político de Putin).

O ISIS é a urgência do momento. A decapitação de James Foley mudou radicalmente a posição de Washington? Nem por isso. É certo que, nos últimos dias, o «exército islâmico do Levante» foi alvo de bombardeamentos cirúrgicos, mas a ameaça continua iminente. E ninguém é capaz de dizer que está controlada.

Também no plano interno, o Presidente está em recuo, para que daqui a algum tempo possa atacar. Em dois temas, sobretudo: imigração e alterações climáticas.

Longe de ter condições para uma Reforma de Imigração nos moldes que a sua agenda política exige, Obama e os democratas tentaram, nos últimos meses, aprovar leis parcelares no Congresso, que permitissem que crianças não fossem deportadas. Mas nem isso passou.

E no plano das alterações climáticas, a Administração Obama está a estudar uma forma de contornar o Congresso, de modo a poder assinar próximo acordo internacional, previsto para 2015, para que não se repita o chumbo americano a Quioto, em 1997.

Na política americana, saber esperar é uma arte. Será que Barack Obama leva isso demasiado a sério?



Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»