As guerras contemporâneas fazem-se, cada vez mais, na comunicação.

Não se ganham só nesse espaço, como é óbvio.

Continua a contar mais o que acontece no terreno (quem ganha mais território; as vítimas; os mortos), mas há muito que uma batalha não passa, apenas, por sangue, suor e lágrimas.

E, mais relevante ainda, o que acontece no terreno pode ser «moldado», nas perceções que os públicos-alvos retiram das forças envolvidas, por aquilo que é comunicado e difundido.

Até há alguns meses, o violento grupo liderado por Abu Bakr Al-Baghdadi (autoproclamado «califa» a que os muçulmanos deveriam obedência) era designado nos meios políticos, diplomáticos, militares e mediáticos internacionais por «Exército Islâmico do Iraque e do Levante», com o acrónimo anglófono «ISIL».

Com a expansão territorial do perigoso grupo extremista (passando a dominar perto de um terço do Iraque e vastas zonas da Síria, que com a guerra civil que dura há dois anos passou a ter regiões não controladas pelas tropas de Assad), essa sigla «ISIL» (Islamic State of Iraq and the Levant) evoluiu para «ISIS» (Islamic State of Iraq and Syria).

Também na designação se notou essa evolução: de «Exército Islâmico do Iraque e do Levante», passou-se para «Exército Islâmico do Iraque e da Síria».

De forma progressiva, no entanto, o termo «Exército» passou a ser apontado como «Estado», perante o domínio dos jihadistas em cidades importantes do Iraque e da Síria, como Mosul ou Raqqa.

E, em poucas semanas, perante o impacto comunicacional (e emocional) de momentos como as decapitações dos jornalistas norte-americanos Jim Foley e Steven Sotloff (e as que se seguiram), estava uma boa parte da imprensa e dos media ocidentais a atribuir a «dignidade» de estado ao grupo que assusta e ameaça vários líderes e (isso sim) Estados em diversos pontos do Mundo.

Ora, essa «promoção» comunicacional está longe de ser inócua.

Revela a grande capacidade e organização meticulosa dos jihadistas sunitas, que se autodenominaram de «Estado Islâmico» e conseguiram colar essa ideia, mesmo junto de quem consideram inimigos.

As linguagens mediáticas e políticas norte-americana e britânica, não por acaso, têm resistido a isso.

O Presidente Obama, na comunicação em que anunciou o arranque de «vasta e prolongada campanha de contra-terrorismo», referiu-se sempre a «ISIL» e chegou mesmo a explicar: «Este grupo não é um «estado» e não pode ser considerado «Islâmico», porque nenhuma religião tolera as atrocidades que estão a ser cometidas».

Uma boa parte do sucesso deste autoproclamado «Estado Islâmico» passa pela forma como domina a linguagem mediática e das redes sociais, que utiliza para recrutar guerrilheiros improváveis no ocidente.

Identificado há muito tempo pelos serviços de inteligência americanos como um dos grupos mais perigosos, a verdade é que o antigo «ISIL» ou «ISIS» e agora «Estado Islâmico» não era apontado, até há poucos meses, como grupo tão violento como, por exemplo, o Al-Nusra e as milícias «Khorasan» (sucedâneas da Al Qaeda e apontadas pelo FBI como estando a preparar há meses um grande atentado contra os EUA e/ou um forte aliado, provavelmente o Reino Unido).

Parte da alteração de prioridades tem a ver com a maior eficácia do «Estado Islâmico» em lidar com a comunicação.

A verdade é que o termo pegou e agora é difícil deixarmos de falar de «Estado Islâmico», mesmo sabendo que estamos a cair numa dupla contradição nos termos.

Teria sido melhor seguir o conselho do secretário-geral da Interpol, Ronald Noble, que propôs que se utilizasse o termo.. «Cowardly Murderers» (Assassinos Cobardes)?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»