«Este ataque é um assalto à dignidade humana. Apresenta também uma séria ameaça à nossa segurança nacional. Os seus riscos constituem uma afronta à proibição global ao uso de armas químicas. Colocam em perigo os nossos amigos e aliados ao longo das fronteiras da Síria, incluindo Israel, a Jordânia, a Turquia, o Líbano e o Iraque. Pode levar a uma escalada de uso de armas químicas, ou à sua proliferação a grupos terroristas que as poderiam usar para fazer mal às populações. (...)

Não será uma ação indefinida no tempo. Não poremos tropas no terreno. A nossa ação será limitada no tempo e no espaço. Mas estou confiante de que poderemos responsabilizar o regime de Assad pelo uso de armas químicas, impedir a repetição destes atos e diminuir a sua capacidade para os levar a cabo. (...)

Não equacionamos colocar tropas nossas no meio de uma guerra que é de outros. Mas somos os Estados Unidos e não podemos e não devemos fechar os olhos ao que aconteceu em Damasco».


BARACK OBAMA, Presidente dos EUA, declaração sobre a Síria, 31 de agosto de 2013

Obama já terá chegado a um «no turning back» em relação à Síria.

Com a declaração de sábado, cujos excertos principais abrem esta crónica, o Presidente expôs a sua visão sobre o que o leva a exigir uma intervenção militar «limitada no tempo», que não implicará «boots on the ground».

Mas esta não é uma inversão de «doutrina Obama», que nos primeiros anos passou pela retirada do Iraque e do Afeganistão.

O Presidente traçara a «red line» para uma intervenção com um eventual uso de armas químicas. Perante as provas que chegaram à Administração Obama, e que nos últimos dias tiveram sinais reforçados de uso de gás sarin, essa tese saiu duplamente reforçada.

Mesmo que a ação que tem vindo a ser anunciada pela Casa Branca seja «de curta duração» e sem uso de tropas no terreno, manda a tradição do sistema americano que o Presidente a vá legitimar ao Congresso. É certo que a decisão real de ir para a guerra foi passando do Congresso para a o Presidente. Mas essa aprovação continua a ser fundamental.

A data chave para a «operação Síria» passou a ser 9 de setembro, dia em que o US Congress vai discutir o plano da Administração Obama.

No fim-de-semana, o secretário de Estado John Kerry deixou clara a sua convicção de que «o Presidente Obama terá o apoio do Congresso» e nem admitiu espaço para outro resultado que não fosse um «sim».

Na mesma linha, William Kristol, editor do «Weekly Standard» e um dos principais analistas conservadores, prevê um «apoio republicano a Obama» nesta questão: «Penso que o Partido Republicano«Penso que o Partido Republicano dará o passo certo e apoiará o Presidente contra um ditador apoiado pelo Irão, que patrocina o terrorismo e usou armas químicas», comentou, na NBC.

Mas a decisão de Obama está longe de ter apoio consensual nos meios políticos e nos «think tanks» americanos. Victor Davis Hanson, em artigo na National Review Online, questiona: «Qual é o ponto de uma intervenção na Síria? Se o objectivo é enfraquecer Assad sem apoiar islamistas pró-Al Qaeda, então a não iteria efeitos mais concretos. Se o objectivo é destruir depósitos de armas químicas e enviar uma lição ao Mundo, onde estão elas e como poderemos eliminá-las?»

Outro analista fortemente crítico da posição de Obama sobre a Síria é Fareed Zakaria: «A equipa de Obama falhou a abordagem à Síria. Estamos perante um exemplo de como não se deve atuar em política externa. Em março, o Presidente Obama disse que o uso de armas químicas seria um «gamechanger» na questão síria. Foi mesmo, mas não no sentido que ele que queria apontar.»

Longe de ter na mão a opinião pública e a maioria dos analistas em relação à Síria, o Presidente parece ter tomado a decisão e espera apenas o «sim» do Congresso.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca