Se havia dúvidas sobre o grau de disfuncionalidade do sistema política na América, o ano de 2013 retirou-as por completo.

Uma consulta pelos últimos indicadores económicos faria prever que este final de ano teria tudo para ser de festa para a Administração Obama: a economia americana (que já crescia de forma consistente há dois anos e meios) está finalmente a disparar, tendo tido, no terceiro trimestre do ano, um crescimento de 4,1%, bem acima dos 3,6% que inicialmente tinham sido previstos pelo próprio Departamento de Comércio norte-americano.

Estes dados são a prova de que a tendência de recuperação económica nos EUA está para ficar.

De tal modo que Ben Bernanke já anunciou que a Reserva Federal americana vai começar a reduzir nos estímulos financeiros à economia, interpretando assim uma menor necessidade de alavancar a recuperação.

O consumo das famílias, que represente quase três quartos da economia interna americana, subiu 2% (acima dos 1,4% previstos pelo governo).

A Administração Obama espera que no último trimestre do ano este crescimento continue, com valores que podem chegar aos 3,8%.

Associada a este crescimento económico sólido, a taxa de desemprego está nos seus valores mais baixos dos últimos cinco anos, nos 7%. Só em novembro, foram gerados 203 mil empregos na América.

Num clima de normalidade política, isto seria o essencial do quinto ano da presidência Obama: a notícia de que a recuperação económica está para ficar e que a América, em 2014, já terá uma cara diferente, para melhor, do que tiveram os EUA dos anos de crise desde 2008.

Mas já todos sabemos que o clima em Washington está muito longe de ser normal. Nas análises e balanços ao ano político de 2013 na América, a nota dominante é do falhanço de Washington. Um falhanço onde todos caíram, incluindo o Presidente Obama.

«2013 foi o pior ano de Washington DC», decretou Chris Cilizza no Washington Post, em texto de balanço político do ano prestes a terminar. «Os republicanos no Congresso tiveram um ano mesmo muito mau. Porque não mudaram nem um bocadinho».

«O ano começou com a capitulação do Presidente Obama na negociação da «Fiscal Cliff» e seguiu até ao «gvernment shutdown» pelo qual os republicanos devem levar com a maior parte das culpas», observou Cilizza.

O influente articulista do WP lembrou que «uma maioria de congressistas republicanos até votaram contra uma proposta de canalização de fundos de apoio às vítimas do furacão Sandy», além de terem impedido a aprovação da Reforma da Imigração (anteriormente aprovada no Senado) e até de uma lei que penalizada a violência contra as mulheres.

O momento ridículo das 21 horas de discurso de «filibuster» de Ted Cruz no Senado contra a Reforma da Saúde e as constantes sabotagens da ala direita contra a tentativa de compromisso do «speaker» John Boehner acrescentam a longa lista com que Chris Cilizza argumenta o «pior ano de Washington».

Barack Obama, que teria créditos económicos e na política externa a mostrar em 2013, sai profundamente afetada politicamente com isto. «Foi perdendo oportunidade atrás de oportunidade de começar a construir o seu legado. 2013 era o melhor ano para iniciar esse caminho», observa Chris Cilizza.

Ruth Marcus, editorialista do Washington Post, que já foi muito elogiosa do Presidente Obama em alturas em que não foi fácil fazer isso, aponta desta vez: «Que ano tão dececionante em Washington. Tão escassas esperanças se veem para 2014. Para o Presidente Obama, um épico falhanço na implementação do ObamaCare».

Mesmo assim, Ruth Marcus vê uma salvação para a Reforma da Saúde em 2014: «É um imperativo tão elevado que acredito que não cairá por problemas técnicos».

A editorialista não poupa a atitude republicana no Congresso, apelidando o «government shutdown» de «momento estúpido».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca