Barack Obama apontou fronteiras claras na questão ucraniana. E assumiu-se como o elemento mais forte entre os líderes internacionais que pretendem travar a ameaça russa.

De forma especialmente simbólica, Obama falou em Varsóvia, ao lado do seu homólogo polaco, em frente a poderosos F16, mostrando que a América está de regresso ao palco europeu no seu lado mais bélico.

A mensagem ia direitinha para Moscovo, perante a insistência de Putin de se manter na Crimeia e perante a instabilidade em várias cidades do Leste da Ucrânia.

A presença de Putin nas comemorações dos 70 anos do Dia D foi dado novo no clima de alta tensão que marcou os últimos meses, desde a jogada imprevista na Crimeia.

Putin e Obama ainda não tinham estado cara a cara desde o estalar da crise, apesar de algumas conversas telefónicas, todas elas tensas e com trocas de acusações entre os líderes políticos de Moscovo e Washington.

Na Normandia, um «estranho encontro», como lhe chamou Julie Pace, na Associated Press, não deixou claras as conclusões da breve conversa de um quarto de hora entre Vladimir e Barack.

Vale a pena seguir o relato de Julie Pace na AP: «Obama era todo sorrisos à medida que os líderes se reuniam nos degraus que davam acesso do grande Chateau de Benouville para a foto de grupo. Tomou o seu lugar na fila da frente, ao lado da Raínha Isabel II e acenou e apertou a mão a vários líderes. Mas o Presidente dos EUA evitou sempre qualquer tipo de contato com Putin, quando o líder russo tomou o seu lugar, bem perto. Hollande, a rainha Margarida da Dinamarca e a Rainha Isabel de Inglaterra serviram de escudo de proteção entre Putin e Obama. Feita a foto, Obama esteve um pouco com a raínha de Inglaterra, enquanto Putin foi indo com Hollande, a caminho do almoço. Mas os dois pares ficaram quase lado a lado, com Obama tão perto de Putin que facilmente poderia até tocar-lhe nos ombros. Em vez disso, Obama continuou a conversa com a rainha de 88 anos. Mais que uma vez, ele diminuiu o passo, pondo alguma distância a Putin. Não havia «media» presentes na conversa Obama-Putin dentro do castelo, que assessores descrevem como «informal».

Quase todos os sinais dos últimos dias confirmam uma via forte do Presidente dos EUA em relação ao problema no Leste da Europa: apoio ao novo presidente da Ucrânia, com fornecimento de armamento americano para Kiev e promessas de ajuda efetiva; reforço das sanções a Moscovo, dando a Putin «um prazo de três ou quatro semanas para recuar nas ameaças para que essas sanções não permaneçam».

Obama mantém discurso claro para com Putin: o alívio das sanções económicas depende, essencialmente, do reconhecimento de Moscovo do novo presidente ucraniano, eleito a 25 de maio.

O novo presidente ucraniano vê a Crimeia «como espaço Ucrânia», mas terá direito a ter o embaixador russo em Kiev na sua tomada de posse. Mesmo que não o admita, Putin estará a dar sinais de desgaste pelo nível de sanções a que a Rússia tem estado sujeita.

E, por falar em sanções, os últimos dias marcaram também alguma tensão entre Washington e Paris pelo facto da França ter vendido material a Moscovo que se incluiria no pacote de restrições imposto à Rússia.

No caso BNP Paribas (banco francês condenado pela justiça americana a pagar multa pesadíssima de 16 mil milhões de dólares por ter emprestado dinheiro, entre 2001 e 2009, a países como Sudão, Irão e Cuba, que estão na «lista negra» das sanções), Hollande e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Lauren Fabius, foram especialmente críticos dos EUA, queixando-se da «desproporção da coima».

O tema foi falado entre Obama e Hollanda, na Normandia, mas o Presidente dos EUA foi muito claro: «Não me meto em questões judiciais. Não telefono ao Departamento de Justiça».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»