O segundo mandato de Barack Obama passa por um momento difícil do ponto de vista comunicacional.

Com as prioridades políticas assumidas pelo Presidente em claro impasse (reforma da Imigração, «gun control», redução da dívida), as atenções têm estado mais viradas para o «caso Snowden» e para as consequências do pedido de falência da Detroit.

Convém pôr tudo isto em perspetiva. Antes de se decretar a «maldição dos segundos mandatos» (houve quem se lembrasse do que passaram Presidentes como Clinton ou Bush filho depois de terem sido reeleitos), será prudente perceber que Obama assumiu um horizonte temporal que só termina mesmo em janeiro de 2017.

Que o primeiro meio ano de segundo mandato não correu como o Presidente desejaria, isso é fácil de concluir: a prioridade dada à aprovação de restrição no acesso às armas mostrou as fragilidades da Casa Branca conseguir impor ao Congresso uma necessidade que a própria opinião pública estava a exigir.

Mas sejamos claros: o «gun control», sendo um ponto importante na visão do Mundo de Barack Obama, não é um dado fundamental da equação para o segundo mandato.

Antes de abandonar a Casa Branca, o Presidente quer ter tempo para deixar a sua marca em três aspectos fundamentais: melhorar as condições de vida da classe média (desde sempre, o foco central da sua ação política); impor a América como o principal «player» de um mundo em profundas e imprevisíveis mutações nos próximos anos; lançar os EUA na liderança em áreas cruciais para as próximas décadas, como a independência energética e as energias «limpas».

É certo que Obama já não tem muito tempo do ponto de vista do calendário político: as eleições intercalares são daqui a pouco mais de um ano; as eleições presidenciais de 2016, que definirão o seu sucessor na Casa Branca, já começam a sobressaltar os dois campos partidários, em torno dos possíveis pretendentes às respectivas nomeações.

Mas já todos sabemos que, na política americana, as coisas são assim. «The show must go on», mas enquanto o relógio mediativo corre furiosamente, um Presidente tem que saber definir uma rota para conseguir criar o legado com que pretende ser recordado.

No caso de Obama, a marca principal foi deixada no principal argumento para a reeleição: a defesa da classe média, nas suas componentes mais concretas (redução do peso fiscal, aumento do acesso ao emprego, transparência de regras com as «big corporations»).

A visão que o Presidente tem construído para o segundo mandato reforça o foco na política interna em detrimento da preocupação com o multilateralismo.

Em casos como os da Síria, ou do Egito, isso até nos remete para uma mudança demasiado vincada na perspetiva americana do (não) uso do seu poder bélico.

O retomar do processo de paz israelo-palestiniano, três anos depois de um ciclo que, visto dos dias de hoje, está completamente desatualizado (em 2010, ainda Mubarak e Assad estavam na fotografia em Washington, imaginem só), ajuda-nos a perceber que os EUA continuam a ser o ator indispensável nas grandes questões mundiais.

É a primeira prova de fogo do secretário de Estado John Kerry e é a demonstração mais clara da política realista da Administração Obama: a América continuar a querer liderar, mas só nas situações que considera fundamentais e estratégicas.

Nestes tempos de realismo, a América de Obama quer ser, acima de tudo, o ás de trunfo que desbloqueie um Mundo em processo de mutação e que mostra mais contradições do que certezas. Menos «europeu» e «atlântico», mais «asiático» e «pacífico», mas com os EUA a manterem-se como atores indispensáveis.

Quem não perceber isto e pensar que a Administração Obama está paralisada com o «gridlock» crónico de Congresso, está a falhar o essencial.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca