«Gostava que houvesse apenas um Partido Republicano para que soubéssemos com quem temos que negociar»

Joe Biden, vice-presidente dos EUA)

«O acordo que os republicanos fizeram para o teto da dívida foi um embuste. É por coisas destas que o Congresso tem só 13% de aprovação»

Ted Cruz, senador republicano do Texas, afeto ao Tea Party)

O impasse político em Washington parece já ter tido piores dias: o acordo feito no Congresso para aumentar o teto da dívida afasta o risco de «shutdown» durante um ano, garantindo «tréguas políticas» entre o Presidente e a oposição durante os meses de campanha para as intercalares e a preparação para o Orçamento de 2015.

Muito cedo para que a Casa Branca declare vitória, é claro: basta ouvirmos o que dizem os republicanos no Congresso sobre temas fundamentais para a agenda do segundo mandato de Obama, como a Reforma da Imigração ou a Energy Bill.

Mas a questão do funcionamento essencial do sistema parece ter ficado assegurada na reta final da presidência Obama.

Em política, a pragmática, por vezes, sobrepõe-se à ideologia. O Presidente precisa de ter instrumentos para governar. Os republicanos sabem que teriam mais a perder do que a ganhar se assumissem a paralisação completa do sistema.

Quer dizer: nem todos. Alguns dos líderes mais visíveis da fação Tea Party ficaram furiosos com o acordo alcançado, primeiro na Câmara dos Representantes, e dias depois também no Senado.

Ted Cruz, pretendente presidencial para 2016, senador republicano do Texas afeto ao Tea Party, acusa: «Acho que a última semana mostrou bem as razões pelas quais o Congresso só tem 13% de aprovação dos americanos. Vimos tudo o que está mal em Washington. Os membros do Congresso, republicanos incluídos, fizeram um autêntico embuste para aprovar aquele acordo vergonhoso».

Esta visão zangada sobre um acordo que apenas garantiu condições mínimas de funcionamento do sistema até março de 2015 explica-se, obviamente, por ter sido feita por quem perdeu o jogo.

Já depois da aprovação na House, com o voto de 28 congressistas republicanos entre os quais os líderes da bancada conservadora (John Boehner, Eric Cantor e Kevin McCarthy), Cruz tentou de tudo para que a maioria democrata no Senado não fosse suficiente para selar o aumento do teto da dívida.

Só com a intervenção de 12 senadores republicanos da ala moderada foi possível travar o «filibuster» (minoria de bloqueio) que já estava a montar-se.

A meio ano das eleições intercalares para o Congresso, os dados parecem cada vez mais claro: do lado republicano, segurar a maioria na House e atacar o controlo do Senado passa, desta vez, pela moderação e não pela radicalização (que funcionou em 2010, altura de maior descontentamento contra o Presidente).

Onde fica Paul Ryan (atual «frontrunner» das sondagens para a nomeação presidencial republicana de 2016) nisto? A meio caminho, claramente.

O congressista do Wisconsin tinha dado sinais de querer entrar no jogo do compromisso, já depois da reeleição. Mas à última hora votou contra o aumento do teto da dívida, preferindo o «mantra» do conservadorismo fiscal levado ao limite, em vez das vantagens da negociação.

É com estes diferentes tons de republicanismo que o Presidente Obama vai ter que lidar até ao final do seu segundo mandato. Os resultados das «midterms» de novembro poderão conferir-nos os dados que faltam nesta equação tão complicada de gerir.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»