Depois do choque, uma reação rápida. Veremos se as consequências políticas serão suficientes para travar males maiores.

Primeiro, o choque: Eric Cantor, influente congressista da Virgínia, um dos líderes ideológicos da «resistência conservadora» aos anos Obama, entrou para a história política da América com um constrangedor «recorde negativo» de ter sido o primeiro líder de uma maioria partidária no Congresso que não conseguiu manter o seu próprio assento na Câmara dos Representantes.

E nem sequer foi numa luta eleitoral com o «outro lado da barricada».

Na verdade, Eric, peça importante na negociação no verão de 2011, com o Presidente, por um acordo que travasse ao último minuto o «default» das contas americanas, nem sequer chegou, desta vez, à eleição geral de novembro, para as midterms: caiu a meio do caminho, perdendo as primárias do seu próprio partido para David Brat, um representante da fação extremista, muito pouco identificado com as «regras de negociações» de Washington.

Do ponto de vista político, a derrota de Eric Cantor foi vista, no Capitólio, assim como uma espécie de... «tsunami». Entre as cúpulas partidárias, seja do lado republicano mas mesmo do lado democrata, ninguém sequer imaginou que tal coisa podia acontecer: um líder de uma maioria perante a humilhação de não ser legitimado pelos seus próprios companheiros de partido no estado que representa em Washington.

Sentido o choque, as ondas do impacto ainda se fazem sentir, duas semanas depois de tão inesperado evento. Até os congressistas republicanos, que nestes anos Obama deram tantas provas de autismo político, perceberam que tinha aparecido aqui uma espécie de... cartão vermelho.

Muitos analistas no espaço mediático americano identificaram uma espécie de... fim do Partido Republicano, na sua formulação clássica e previsível, disposta a negociar com «o outro lado», aberta a «reach across the aisle» e a conversar com um Presidente democrata, mesmo quando os pontos de contato são quase nenhuns.

Em poucos dias, a reação: mudança rápida das lideranças republicanas no Congresso.

Kevin McCarthy, congressista eleito pela Califórnia (estado cosmopolita e liberal), é o novo líder da maioria na Câmara dos Representantes, e Steve Scalise, congressista republicano da Luisiana, passou a liderar a «majority whip».

Há uma preocupação de renovação, não tanto geracional (Eric Cantor é um político relativamente jovem), mas de modelo de congressista. A intenção, clara, é dar a vez a republicanos que ainda não estejam demasiado conotados com os «old habits» de Washington: ambos na casa dos 40 em idade, Steve só é congressista há seis anos, tendo ficado com o lugar que era de Bobby Jindal, quando o americano-indiano foi eleito governador daquele estado sulista; Kevin, de apenas 39 anos, ganhou o lugar de congressista pelo 23.º distrito da Califórnia em 2007.

O primeiro passo de McCarthy e Scalise será conseguir um estilo de liderança mais compatível com John Boehner, o «speaker» do Congresso, também ele congressista republicano, eleito pelo Ohio, e também ele com dificuldades crónicas, durante a era Obama, de fazer a ponte entre a guerra política com os democratas e a pressão da ala extremista da direita americana, vulgarmente conhecida como «Tea Party».

Nas intercalares de há quatro anos, essa ala obteve um número impressionante de assentos, passando assim a poder influenciar, muitas vezes desvirtuar, o jogo político no Capitólio.

Esta mudança de líderes terá sido a última tentativa do GOP de se precaver para um novo «tsunami» em novembro, que lhe poderia comprometer o ataque à Casa Branca em 2016.

Será suficiente?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»