Barack Obama anuncia esta quarta o seu plano para travar o ISIS.

Mas o Presidente dos EUA já começou a preparação da opinião pública e dos outros atores políticos do sistema americano para o que aí vem, através de declarações públicas nos últimos dias e da divulgação de um vídeo chocante, com imagens de ações feitas pelos jihaditas sunitas.

Durante o dia de hoje, Obama vai reunir-se com os líderes do Congresso, para explicar as linhas de força do seu plano para combater o ISIS. A estratégia ainda não foi revelada, mas tudo indica que passará pelo agravamento dos bombardeamentos e pelo envolvimento mais ativo de parceiros dos EUA (sobretudo Reino Unido e França), que também tenham interesses diretos na região.

Tropas no terreno, para já, é cenário afastado.

Mas também é provável que o Presidente lance amanhã o aviso: a ameaça do ISIS é demasiado séria para se resolver com meia dúzia de ataques aéreos. O problema é complexo, vai demorar a resolver-se e até pode implicar um período de tempo mais largo do que o final do segundo mandato presidencial de Barack Obama.

Como foi possível que grupo tão extremista e perigoso tenha conseguido um domínio tão significativo de um território tão vasto e estratégico?

Tiago Moreira de Sá, especialista em política internacional, observou em entrevista recente à Rádio Renascença: «A retirada das tropas norte-americanas do Iraque, sem que houvesse mínima capacidade militar digna do nome e, pior ainda, nem sequer existisse na prática um governo que merecesse o nome - e a forma como al-Maliki alienou sectores fundamentais da sociedade - agravou ainda mais o cenário. Este ponto é fundamental: essa alienação já tinha começado antes, mas prosseguiu durante a governação do xiita Nouri al-Maliki. Grande parte dos sunitas, alguns deles sunitas seculares e moderados que tinham feito parte do governo de Saddam Hussein, ficaram sem saída. Muitos destes sunitas nem sequer tinham simpatia pelo ISIS, nem sequer eram particularmente radicais nesta lógica de confrontação religiosa, mas preferiram uma aliança tática com o Estado Islâmico, contra os xiitas no poder em Bagdad.»

A escalada da barbárie foi, nas últimas semanas, o maior sinal da força e da capacidade ameaçadora do ISIS. Mas, a médio prazo, poderá ser, também, a razão da queda do Estado Islâmico.

Se o paradigma dominante nas opiniões públicas ocidentais, depois das guerras no Iraque e no Afeganistão na primeira década do século XXI, era a de «retirada», a verdade é que quanto mais se conhecem as atrocidades feitas pelo ISIS (violações em massa, decapitações, perseguição a minorias), mais condições políticas há para uma «grande coligação internacional» que trave os radicais sunitas.

Obama não quer «boots on the ground» e vai reforçar a ideia de que os EUA não podem resolver isto sozinhos. Mas será que o Presidente demorou a «encontrar uma estratégia»?

Marco Rubio, pretendente a sucessor de Obama na Casa Branca, senador republicano da Florida, é duro nas palavras: «O Presidente tem cometido erro sobre erro na sua política externa. Temos ouvido mensagens contraditórias por parte da administração. Eles não têm uma estratégia: vamos conter o ISIS ou vamos derrotá-los e eliminá-los?»

Dianne Feinstein, senadora democrata da Califórnia, congratulou o Presidente de que é apoiante desde a primeira hora (até foi a responsável pelas cerimónias da primeira tomada de posse), «por estar finalmente na ofensiva contra o ISIS», mas admitiu: «Pode ter sido uma decisão demorada. A América tem assumir a liderança desta questão».

Mike Morell, antigo diretor-adjunto da CIA, avisa, em declarações à CBS: «Travar o ISIS significa retirar-lhes território e passar a liderar as zonas que eles controlam».

Será possível fazê-lo sem «sujar as botas»?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro