Durante décadas, habituámo-nos a um Mundo relativamente previsível.

Injusto, claro. Às vezes perigoso, também. Mas relativamente previsível.

Para uns, os EUA deviam ser censurados por quererem ser «o polícia do Mundo». Para outros, os americanos, imbuídos do poder indestrutível da sua superioridade militar, tinham a obrigação de «nos proteger».

Os últimos anos mudaram radicalmente esse panorama.

A crise financeira, os cortes no Pentágono e a mudança de política na Casa Branca (com a «contenção» e o «realismo» a dominarem as prioridades do Presidente Obama para a política externa) levaram a uma diminuição da influência americana.

Rui Ramos, em artigo no «Observador», nota: «Descarregado o «fardo do homem branco», vivemos a última ilusão do imperialismo: julgámos que ainda tudo dependia de nós e que se portanto deixássemos o mundo em paz, o mundo nos deixaria em paz a nós. Na Holanda, nos últimos dias, houve quem pedisse o envio de tropas da NATO para o leste da Ucrânia. Percebe-se o desespero: depois de abaterem o avião, os separatistas russos pilharam os despojos e apoderam-se dos cadáveres, que usaram para se imporem como interlocutores internacionais. Como é óbvio, nunca houve a mínima chance de os líderes ocidentais fazerem mais do que produzir algumas citações para a comunicação social.(...)Nos últimos anos, julgámos que nos tínhamos tornado bons. Mas o mundo prepara-se para testar a nossa bondade. Mr. Kurz, no romance de Conrad, não resistiu. E a nós, que nos vai fazer o «horror»?»

Madeleine Albright, secretária de Estado no segundo mandato de Bill Clinton, comentou, em entrevista ao «Face The Nation» da CBS: «Há duas coisas verdadeiramente diferentes que estão a acontecer. E quando alguma coisa de relevante sucede no Mundo, o trabalho dos diplomatas é lidar com isso. Um dos grandes «gamechangers» foi o comportamento de Putin, perante a Crimeia e agora em toda a Ucrânia e uma atitude completamente diferente da Rússia. A outra é o que está a acontecer no Médio Oriente, em grande parte devido ao despertar árabe e também pela artificialidade pela fronteiras estabelecidas depois da I Grande Guerra Mundial».

Para a diplomata americana, «há grandes mudanças a acontecer e muitos americanos estão ainda a tentar perceber qual a posição dos outros países em relação a isto.». «Muitos de nós sabíamos muito pouco sobre o Islão e certamente nem tínhamos uma ideia da diferença entre xiitas e sunitas», considerou Madeleine. «Então, há imensas coisas que precisam de ser compreendidas e explicadas. Para falar claro, neste momento o Mundo está uma grande confusão».

A posição da administração americana em relação ao conflito israelo-palestiniano está longe de gerar consenso interno nos EUA.

Uma parte da direita continua a acusar Obama e Kerry de colocarem o Hamas e Israel em plano de igualdade, deixando a segurança israelita em risco, e que isso estará na base da escalada de violência dos últimos dias.

«Tudo isto resulta de falta de empenhamento e de abandono americano. Quando vemos o que acontece quando a América se empenha, devemos perguntar porque é que isto não está a acontecer agora. Vejam a cena em torno do envolvimento de Kerry na questão Israel/Gaza. Ele decide que tem que ir lá, os israelitas não o convidaram. Os egípcios não o quiseram lá. E ele disse que tinha um plano de paz que era uma espécie de plano construído com base no que os egípcios já tinham. Não tinha nada. Subestimaram tudo isto», acusou Charles Krauthammer, comentador conservador, em declarações à FOX News.

«Acho que houve um jornal israelita de esquerda que disse que Kerry cavou um túnel debaixo do plano de paz egípcio. O Egito queria um cessar-fogo que significasse recompensa zero caso o Hamas começasse esta guerra atacando civis, o que é um crime de guerra. E isso foi proposto antes desta ofensiva terrestre, o que diminuiria em muito o número de vítimas. Israel aceitou, o Hamas não», apontou Krauthammer.