Barack Obama completa hoje o primeiro ano do segundo mandato como Presidente dos EUA.

A 21 de janeiro de 2013, perante 700 mil pessoas (menos de metade da multidão que abarrotou o Washington Mall quatro anos antes), o 44.º Presidente anunciava um segundo mandato mais ideológico e com menos preocupação de «obter consensos».

Um ano depois, o que vemos é que o clima da paralisação em Washington até se agravou no arranque do segundo mandato.

Mas olhando para os indicadores económicos na América (o ano de 2013 terminou com um crescimento de 4,5% e taxa de desemprego de 6,7%), verificamos que os anos Obama estão a ser marcados por recuperação sólida e continuada (a este ritmo, 2015 pode mostrar índices iguais ou até melhores aos anos anteriores à crise).

Obama inicia hoje o sexto ano da sua presidência. E tem repetido, nas intervenções públicas feitas nas últimas semanas (conferência de Imprensa de balanço de 2013; anúncio de restrições ao programa de vigilância da NSA), uma ideia forte: este terá que ser «um ano de ação».

É certo que as promessas de «hope and change» já perderam apelo político, encravadas por cinco anos de obstrucionismo republicano no Congresso.

Mas é também verdade que Obama ainda não desistiu de aproveitar os últimos três anos do seu mandato presidencial para cumprir grande parte da sua agenda.

O «gun control», que sofreu duro revés em abril passado, está novamente na lista de prioridades da Casa Branca, prevendo-se nova proposta a apresentar nos próximos meses.

A estratégia de Obama para 2014 parece passar por contornar, sempre que possível, o Congresso. EJ Dionne explica, no Washington Post: «Quando um grupo de responsáveis do setor se juntaram na semana passada para ajudar nos esforços do Presidente Obama de tornar possível que os estudantes com parcos recursos económicos acedam à universidade, estavam entusiasmados com os acordos conseguidos com reitores de universidades e fundações, de modo a derrubar barreiras sobre os pobres e sobre crianças provenientes de minorias desfavorecidas. Falaram de reduzir propinas, descreveram passos para minorar o fosso entre classes. Tudo boas ideias que até devotos conservadores poderia apoiar. Nenhuma requer a ação do Congresso. Nenhuma envolve o dispêndio de mais gastos públicos».

Boa parte dos sucessos que Obama poderá vir a ter em 2014 passa por este tipo de temas: apoios reais sobre gente real, sem ter que passar pela «chantagem» de um Congresso infetado pela oposição cega dos republicanos em temas essenciais.

Nos últimos cinco anos, grande parte das esperanças criadas pela eleição de Obama foram caindo aos pés de um sistema disfuncional.

Na frente externa, o acordo com o Irão colhe frutos: ainda ontem, foi anunciada a suspensão de sanções dos EUA sobre Teerão, como forma de compensar a redução da ameaça nuclear iraniana.

Mas as ondas de choque do «caso Snowden» continuam a gerar interpretações contraditórias. Para quem tem interesse no tema, vale a pena ver esta discussão na CNN entre Ruth Marcus, editorialista do Washington Post, e Glenn Greenwald, colunista do «Salon» que agora vive no Brasil (http://youtu.be/OouL16eWQvk)

O recente discurso de Obama, a anunciar restrições ao programa de vigilância da NSA, definiu bem a visão do Presidente sobre este tema tão sensível para a sua Administração.

O Presidente deixou claro que não quer ver a América «a espiar os seus amigos e aliados», reforçou ideia já transmitida de que «os EUA não andam a coscuvilhar mensagens e telefonemas de índole privada dos cidadãos», mas avisou, de forma pragmática: «As nossas agências continuarão a obter informações sobre as intenções dos Governos em todo o mundo, tal como o fazem as de as de todos os outros países. Não pedimos desculpa por sermos mais eficazes».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»