Na década de 90, Bill Clinton (o último Presidente democrata antes de Obama) ficou conhecido como o «comeback kid», tantas foram as vezes que conseguiu renascer das cinzas, voltando sempre a fortes níveis de popularidade.

Barack Obama está a tentar fazer o mesmo, depois de um 2013 para esquecer, na batalha com os republicanos.

A passagem de ano marcou vários balanços nas análises políticas na América.

Apesar de diferentes pontos de vista (facilmente identificáveis no ambiente de clivagem que se vive nos EUA há vários anos), houve um registo comum: o de que 2013 foi um «ano falhado» em Washington e que o Presidente Obama terá que aproveitar o novo ano para tentar recuperar a mão no jogo político em DC.

Na política americana, o tempo corre muito depressa. Passa-se quase diretamente de um ciclo eleitoral para outro, entre eleições presidenciais com «midterms» para o Congresso.

Daqui a poucos meses, estaremos em pleno ambiente eleitoral com a disputa de toda a Câmara dos Representantes e de um terço das vagas no Senado.

As sondagens ainda não são totalmente claras sobre o que poderá acontecer, mas um cenário de recuperação democrata que ofereça ao Presidente uma segunda parte do segundo mandato com os trunfos na manga para concluir a sua agenda está longe de ser a tendência dominante.

É de esperar que os democratas mantenham o controlo no Senado, mas parece francamente improvável que recuperem a «supermaioria» de 60 em 100, que detinham quando Obama foi eleito pela primeira vez, em novembro de 2008.

Quanto à Câmara dos Representantes, que se mantém largamente republicana, ainda que com um pendor do Tea Party menor que teve em 2010, tudo está em aberto. O mais provável, a esta distância de dez meses, é que o Partido Republicano mantenha o controlo da House, ainda que por uma curta margem.

Na Casa Branca, há quem defenda a teoria de que o Presidente deveria colocar todas as fichas na próxima campanha para as intercalares (na verdade, o último ato eleitoral de forte impacto para Obama até ao final da sua presidência, se atendermos ao facto de que Barack não poderá recandidatar-se à Casa Branca em 2016), de modo a ter condições para deixar um legado até janeiro de 2017.

Mas não se prevê que Obama coloque toda a carne no assador nessa campanha. O dilema é o mesmo que o perseguiu desde que tomou posse: a sua principal conquista legislativa (o ObamaCare) não é popular e assusta vários dos congressistas democratas, que temem custos eleitorais se se colarem à ideia.

O mais provável, por isso, é que o Presidente aposte na recuperação económica (cada vez mais uma realidade na América) e mantenha uma gestão política da sua agenda, desde a Casa Branca, com uma progressiva negociação com o Congresso.

«Há muitos 'ses' a marcar o ano de 2014 para a Presidência Obama. Mas acredito que os últimos anos desta presidência serão melhores que os anteriores, graças a uma economica que parece vir a ser cada vez melhor», aponta Joe Trippi, estratega democrata, comentador da Fox News.

A minimização dos erros do «ObamaCare enrollment» será um dos pontos cruciais. Depois do desastre de dezembro, as últimas semanas marcam alguma recuperação: o objetivo da Administração Obama aponta para sete milhões de americanos a a aderir ao megaplano até ao final de 2014 e o número, no início de janeiro, é já de dois milhões. 31 de março é um «deadline» importante: «Essa é a data chave, porque é o dia em que os americanos terão que decidir se preferem cobertura de saúde ou pagar por eles próprios. Se não tiverem plano de saúde do seu emprego ou não tiverem aderido ao ObamaCare, a lei prevê que tenham que assinar um plano próprio, sob pena de pagarem uma multa, incluída no reembolso anual dos seua impostos», explica Susan Page, no USA Today.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»