Barack Obama vai de férias até 18 de agosto e em Washington até há quem diga que este é um bom momento para parar para pensar.

Definitivamente, os últimos meses não foram positivos para o Presidente. O revés mais recente foi o clima de tensão com Moscovo, a propósito do «caso Snowden».

Os Estados Unidos nunca terão chegado a admitir verdadeiramente a possibilidade de a Rússia conceder asilo temporário a Edward Snowden.

A 18 de julho, o antigo analista da NSA, fugido à justiça americana, pediu abrigo diplomático a Moscovo.

Os russos hesitaram, deram até um primeiro sinal de que iriam rejeitar a pretensão (cientes dos problemas diplomáticos que tal decisão implicaria), mas acabaram por aceder ao pedido de Snowden, no passado dia 2 de agosto.

Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, teve uma reação mais direta do que é costume nestas ocasiões: «Estamos extremamente desiludidos com a decisão do governo russo apesar dos nossos pedidos muito claros e legais, em público e em privado, para que Snowden fosse expulso para os Estados Unidos, onde deveria responder às acusações que lhe são dirigidas. O senhor Snowden não é um delator, é acusado de ter revelado informações classificadas e indiciado em três atas de acusação criminais. Deveria ser enviado para os Estados Unidos o mais depressa possível, onde lhe será movido um processo com todos os direitos de defesa».

Nos meios políticos e diplomáticos de Washington, a reação dificilmente podia ser pior. Os líderes norte-americanos ficaram furiosos com Vladimir Putin e tomaram aquela decisão como uma afronta.

Washington está a levar as revelações de Snowden como uma séria ameaça à segurança não só dos EUA como também de outros países, entre os quais a Rússia.

A decisão (radical) de anular a cimeira Obama-Putin terá partido do próprio Presidente dos EUA e é o sinal mais visível do «congelamento» das relações Washington-Moscovo.

«Guerra Fria» de volta? Para Barack Obama, isso já estava a acontecer, mas só na mentalidade russa: «Putin dá mostras de ter uma mentalidade que ficou encravada nos tempos da Guerra Fria», acusou o Presidente, num tom pouco habitual na sua retórica diplomática, no show de Jay Leno.

O caso não é para menos. Obama tem sido pressionado, nos últimos dias, por democratas e republicanos, a endurecer a conversa com Moscovo.

Uma das figuras que mais tem pressionado o Presidente a virar, em defintivo, as costas a Putin é o senador John McCain, adversário direto de Obama nas eleições de 2008 e uma das principais referências da política americana em questões externas.

Do lado democrata, a visão também aponta para um divórcio com Moscovo: «Se Putin estivesse a cooperar connosco, levaríamos mais em conta as suas especificidades e sensibilidades. Assim, o que ele pensa não tem assim tanta importância», explica, pragmático, Elliot Engel, congressista democrata de Noba Iorque, membro do Comité de Relações Externas.

Mas a tensão com a Rússia não é o único foco de preocupações de Obama.

Em véspera de ir de férias, o Presidente até marcou uma conferência de Imprensa (algo que não fazia há três meses), sentindo-se na necessidade de reforçar a posição da Casa Branca em temas como o risco do «government shutdown» (a 30 de setembro há novo «deadline» no Congresso e, na verdade, ninguém parece ter a solução para o impasse) ou o atraso na Reforma da Imigração (depois da aprovação fácil no Senado, a lei demora na Câmara dos Representantes).

Só sinais negativos para o Presidente? Nem por isso. A entrevista televisiva a Jay Leno voltou a mostrar que Barack Obama continua a ser uma «estrela pop»: teve uma grande audiência junto do público mais jovem e as suas ideias recolher impressões positivas.

Será suficiente?



Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»