A recondução de Robert Gates no posto de secretário da Defesa foi uma das primeiras decisões de Barack Obama, quando foi eleito pela primeira vez para a Casa Branca. E sinalizou uma visão de continuidade em relação à política externa, entre os anos finais de Bush e o primeiro mandato de Obama.

Na altura, a escolha fez sentido: apesar da aparente contradição de estar a manter no Pentágono alguém que havia sido indicado, dois anos antes, por George W. Bush, a verdade é que Barack Obama se revia na «surge» (reinvidicada no terreno pelos generais David Petraeus e Stanley McChrystal) para assegurar saída digna do Iraque e do Afeganistão.

O Obama-político prometia a retirada. O Obama-presidente sabia que antes de sair, havia que evitar um banho de sangue e «novos Vietnames».

Robert Gates, republicano moderado que serviu quase todos os presidentes desde Nixon, foi, assim, a escolha política certa para o momento. Gates acabaria por sair a meio do primeiro mandato presidencial de Obama, dando a vaga a Leon Panetta, democrata da «linha dura», menos familiarizado com as chefias militares, mas mais ligado aos interesses dos «lobies» de Washinghton.

O cumprimento dos «deadlines» para as diferentes etapas das retiradas do Iraque e do Afeganistão (a primeira está concretizada, a segunda conhece este ano a fase derradeira) e o sucesso na operação de eliminação física de Bin Laden e de outros líderes da cúpula da Al Qaeda fizeram da questão militar um dos pontos mais fortes do primeiro mandato de Obama.

Mas nem tudo foi pacífico no relacionamento do Presidente com as chefias militares (crucial no legado dos presidentes americanos).

O rescaldo da «Operação Geronimo», a tal que terminou de Bin Laden (maio 2011), já tinha apontado alguma tensão entre a Casa Branca e o Pentágono.

No livro «Duty - Memoirs of a Secretary at War», Robert Gates assume que estava contra a eliminação de Bin Laden, receando um fracasso monumental para o Presidente. «Foi uma das decisões mais corajosas que já testemunhei na Casa Branca», assumiu Gates.

Foi das poucas passagens elogiosas para o Presidente. Neste livro de memórias, publicados há dias nos EUA, Robert Gates acusa Obama de duvidar dos planos militares que traçou para o Afeganistão.

«O Presidente não considerava sua a guerra do Afeganistão. Ele estava cético, se não completamente convencido que iria falhar», aponta Robert, desenvolvendo: «O seu problema fundamental com o Afeganistão era que as suas preferências políticas e filosóficas para a diminuição do papel dos EUA eram contraditórias com a sua retórica a favor da guerra, com as recomendações quase unânimes dos seus conselheiros e com a realidade no terreno».

A verdade é que Obama promoveu um reforço de 30 mil soldados no Afeganistão, defendendo-o em discurso em West Point que até foi elogiado por setores republicanos. Nestas memórias, Gates observa: «Nunca duvidei do apoio de Obama às tropas, apenas do seu apoio à missão».

As críticas mais fortes, no entanto, vão para o vice-presidente Joe Biden. Desde o caso da demissão de Stanley McChrystal (o general que comandava o ISAF, no Afeganistão, o Joint Special Operations Command), ficaram notórias as divergências entre os chefes militares e o vice-presidente.

No verão de 2010, McChrystal deu uma entrevista à Rolling Stone assumindo um registo improvável para um general com as suas responsabilidades. Entre outras coisas imprevistas, arrasou Joe Biden, a quem acusou de não ter a mínima noção do que se passa no terreno e no mundo militar.

Três anos e meio depois, o livro de Robert Gates reforça a tese de McChrystal: «Joe Biden envenenou as águas do poço contra as chefias militares» e «esteve errado em quase todos os grandes assuntos da política externa nas últimas quatro décadas».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»