Faltam três dias para os EUA atingirem o teto da dívida, o governo federal americano está parcialmente fechado há duas semanas e ainda não há acordo para resolver esta dupla crise que está a sequestrar Washington.

Anda tudo nervoso em DC e, à medida que o relógio avança, o tom dos discursos agrava-se dos dois lados.

Obama e os democratas mantêm a sua posição: há que resolver isto o mais depressa possível e recuar na implementação do ObamaCare não é uma opção.

Boehner e os republicanos dão sinais de quererem terminar já este «shutdown», mas acusam a maioria democrata no Senado de ter recusado todas as propostas que saíram da Câmara dos Representantes.

O problema é que, apesar dos dois lados saberem da gravidade da situação, nenhum parece disposto a ceder no fundamental.

Leon Panetta, secretário da Defesa na parte final do primeiro mandato de Obama e antigo diretor da CIA, não poupa na sentença: «Os EUA estão mais fracos com estas crises».

Em entrevista ao «Meet the Press», na NBC, Panetta lamentou: «Estou verdadeiramente surpreendido que, 17 anos depois da paralisação da presidência Clinton, que senti por dentro, a lição não tenha sido aprendida».

Leon fala com conhecimento de causa: ele era o diretor do Orçamento da Administração Clinton durante o «shutdown» de 1995/96, que totalizou 28 dias. «Tantos anos depois, parece que democratas e republicanos estão no mesmo ponto».

A avaliação de Panetta está longe de ser exagerada, ou constituir mero desabafo. Com o calendário a aproximar-se do «deadline», anda mesmo tudo muito nervoso em Washington.

Lindsey Graham, senador republicano da Carolina do Sul, conservador mas feroz crítico da irracionalidade do Tea Party, exibe a sua fúria contra todos os principais atores desta dupla crise.

Ninguém escapa: o Presidente, John Boehner, Harry Reid, os democratas no Congresso, os republicanos no Congresso. «O Presidente é um líder patético. Só se envolveu verdadeiramente nisto nos últimos dias. Sempre que estamos perto de atingir um acordo junto dos nossos amigos democratas, eles mudam o jogo, por alguma razão. Os nossos amigos republicanos na Câmara dos Representantes não conseguem juntar votos suficientes para enviar alguma coisa aqui para o Senado, de modo a que o governo reabra finalmente. Portanto, é a disfunção a todos os níveis», aponta o senador, de 58 anos, citado pelo «Politico».

A autocrítica de Graham, um dos senadores mais respeitados do GOP, ao seu partido é clara: «Extravasámos o nosso papel aqui, isso parece-me claro. Devemos ser culpabilizados por isso. Agora, os democratas também não estiveram bem. A resposta deles, sobretudo do senador Harry Reid (ndr: líder da maioria democrata no Senado) foi fechar tudo. E quando tentamos negociar, eles mudam o jogo. É frustrante».

A Administração Obama reforça a estratégia de jogar diretamente com a opinião pública, chamando a esta situação o «Tea Party Shutdown».

Nos últimos dias, o Presidente voltou a olhar para a frente externa, congratulou-se com o Prémio Sakharov dado a Malala Yousafzai e recebeu na Casa Branca, em conjunto com Michelle e a filha mais velha, Malia, a jovem paquistanesa, de 16 anos, que enfrentou os taliban.

A Casa Branca tem sublinhado os prejuízos para a economia e para mais de um milhão de funcionários públicos americanos da paralisação em setores como o turismo, a cultura, o controlo alimentar, o apoio a jovens mães com dificuldades financeiras e até subsídios a veteranos de guerra e serviços judiciários, que começam a ser afetados, neste «shutdown» que hoje faz duas semanas.

«É tempo de mandar o Congresso para o inferno», resumiu Richard Kopf, juiz federal, no seu blog.

Empresas privadas, que financiam largamente o Partido Republicano, estão a pressionar os congressistas republicanos a terminarem com isto.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca