«Uma proposta de referendo sobre o futuro da Crimeia violaria a Constituição ucraniana e a legislação internacional»

BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos

«O uso da força seria uma situação extrema, mas reservamo-nos ao direito de utilizar todos os meios para defender os cidadãos ucranianos e russos étnicos»

VLADIMIR PUTIN, Presidente da Rússia

Da Crimeia surgem sinais de intenção de aproximação a Moscovo e afastamento de Kiev. Há um referendo marcado para dia 16, com a população local a ter que escolher entre a opção russa ou uma autonomia local.

A História, a Geografia e as raízes culturais colocam a Crimeia do lado russo. Mas uma «doação», em 1954, feita à «república ucraniana» (a segunda maior da ex-URSS) por Krutchev (de origem ucraniana) agravou a confusão política e militar desta península de importância estratégica para Moscovo.

Em 1992, Kiev concedeu estatuto de autonomia à Crimeia em relação à Ucrânia. A forma abrupta e não legitimada como Putin mandou (não assumidamente) 16 mil unidades agravou a tensão e só se pode explicar no contexto da queda de Ianukovich em Kiev e da nova liderança ucraniana, pró-ocidental.

Ao fim de uma semana de crise, a estratégia de Obama para a ameaça russa na Crimeia é clara: evitar a todo o custo uma escalada do conflito; afastar opção de intervenção militar americana; arrefecer ímpetos bélicos do «Urso de Moscovo», com sanções económicas e diplomáticas e com o «raspanete» de direito internacional: «A entrada de militares russos em território ucraniano é uma clara violação da soberania e integridade territorial da Ucrânia e uma infracção à lei internacional», avisou o Presidente dos EUA.

Obama sabe que Putin tem mais a perder do que a ganhar em levar a ameaça às últimas consequências. Pôde falar grosso no plano das sanções nos últimos dias (o Presidente dos EUA ordenou ontem o congelamento dos bens e a proibição de viajar para território americano de todos os responsáveis pela entrada de militares russos na Crimeia), mas manteve a janela do diálogo com Moscovo (na última semana, Obama e Putin falaram, pelo menos, duas vezes ao telefone).

«Reconhecemos os laços históricos e culturais sólidos entre a Rússia e a Ucrânia e também a necessidade de proteger os direitos russófonos e das minorias» no país, comentou fonte oficial da administração americana, citada pela AFP.

A visão da Casa Branca sobre este problema passa, assim, por um progressivo recuo, militar e diplomático, da Rússia de Putin.

Mesmo com o avanço das tropas de Moscovo na Crimeia, Washington está a apontar caminhos de saída. E Obama não se importa de repetir várias vezes a Putin: «As questões a resolver na Crimeia devem ser diretamente dirigidas ao governo ucraniano».

O apoio americano à (frágil) solução governativa em Kiev, saída da Praça de Maidan, é claro e está a ser decisivo para que, de Moscovo, não surjam tentações ainda mais agressivas.

No plano da política interna americana, esta crise na Crimeia não tem tido uma reação clássica.

Geralmente, quando os EUA entram num cenário de guerra ou eventual ameaça à segurança interna dos Estados Unidos, as divergências internas para segundo plano. Não por acaso, os picos de popularidade dos últimos dois Presidentes (Bush e Obama) foram, respetivamente, nos dias seguintes ao 11 de Setembro de 2001 e após a operação de eliminação de Bin Laden.

Mas, desta vez, a estratégia de «contenção e arrefecimento» da Administração Obama junto de Moscovo não está a cair bem na Direita americana mais acirrada.

Ted Cruz, campeão dessa fação extremista, atirou: «Lá de Moscovo, Putin deve estar a rir-se às gargalhadas da forma como Obama está a lidar com esta questão». Uma visão, no mínimo, bizarra de ver a questão. E que mostra bem o estado de uma parte da Direita americana.

As boas lideranças políticas continuam a ser a chave para que crises como a da Crimeia não degenerem em desgraças.