O fantasma do incumprimento americano está afastado até março de 2015.

O acordo pelo aumento do teto da dívida, atingido nos últimos dias nas duas câmaras do Congresso, foi a prova de que o «shutdown» de outubro passado levou a algum recuo no «gridlock» republicano.

Não foi, obviamente, a resolução total do clima de constante impasse que se vive em Washington. Mas reforçou a ideia de que a fase final dos anos Obama poderá ser marcada por uma maior efetividade na relação Casa Branca/Congresso.

Primeiro o acordo surgiu na House. Com o apoio de quase todos os democratas e de 28 republicanos, incluindo o «speaker» John Boehner, o líder da maioria Eric Cantor e da «majority whip», Kevin McCarthy, o aumento do teto da dívida passou com 221 votos a favor, para 201 contra (199 republicanos e dois democratas).

Outros republicanos de relevo na House, como Peter King (Nova Iorque), Dave Camp (Michigan) ou o luso-descendente Devin Nunes (Califórnia), também votaram a favor.

Do lado democrata, a líder da minoria na House, Nancy Pelosi, segurou bem as tropas: apenas dois congressistas do partido do presidente votaram contra o aumento do teto da dívida (Jim Mathseon, do Utah, e John Barrow, da Geórgia).

Logo a seguir, o Senado passou resolução idêntica, mas para qe tal acontecesse, foi fundamental que 12 senadores republicanos travassem uma proposta de «filibuster» (minoria de bloqueio) avançada pelo radical Ted Cruz, senador do Texas e um dos «tea party darlings».

O risco de «default» está, assim, adiado muito para lá das «midterms» de novembro. Sinal de inteligência eleitoral por parte de uma boa parte dos republicanos.

No entanto, a marca de fratura no Partido Republicano continua bem clara: no Senado, Ted Cruz quase conseguia levar avante mais um bloqueio; na Câmara dos Representantes, Paul Ryan, congressista do Wisconsin e outro dos «presidential hopefuls» da direita americana para 2016, votou contra o acordo feito na House.

O Presidente Obama é, em primeira instância, o grande vencedor dos últimos dias: com pelo menos mais um ano de estabilidade garantida na execução orçamental, poderá aproveitar os bons indicadores económicos confirmados em janeiro (6,6% de desemprego, valor mais baixo dos últimos cinco anos, e crescimento económico de 3,2%).

Bem mais difícil é a posição do «speaker» Boehner. Em 2011, o congressista republicano do Ohio garantira que o seu partido «só iria aceitar um aumento do teto da dívida a troco de cortes de triliões de dólares na despesa». Ora, mais uma vez, o teto da dívida aumentou sem essa contrapartida.

Politicamente, a gestão do «braço de ferro» do «shutdown», que em outubro passado parecia ter atirado a Presidência Obama para um novo buraco, está a ser claramente ganha por Obama e pelos democratas.

A Casa Branca já reagiu, através do seu porta-voz, Jay Carney, destacando que foi «mais um passo positivo num caminho de melhor ambiente político em Washington».

A próxima data crítica em termos de escolhas financeiras do Congresso é só a 30 de setembro, precisamente um ano depois de idêntico momento, que levaria ao «shutdown».

Mas no final de setembro de 2014 estaremos a apenas um mês das intercalares, em plena campanha eleitoral. E não é de prever que os republicanos voltem a arriscar levar com a culpa de uma nova paralisação.

Obama ganhou um ano de governabilidade e, agora sim, os focos da política americana estarão apontados, nos próximos meses, para a agenda do Presidente e para as eleições intercalares.

Normalidade em Washington? Na América, é sempre melhor esperar para ver.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»