Foi por horas, mas o desastre foi evitado. Após 16 dias de paralisação, o governo americano voltou a funcionar em pleno e o teto da dívida foi aumentado por três meses e meio, numa aprovação que impediu, por uma unha negra, uma situação que teria consequências dramáticas.

O «sequestro» de Washington está, para já, resolvido. Mas é só mesmo para já. O acordo feito ontem à tarde no Senado adia a questão orçamental até 15 de janeiro e o atingir do teto da dívida até 7 de fevereiro.

Volta a ser uma solução provisória, mas acabou por ser muito melhor do que se imaginou.

A proposta bipartidária teve uma aprovação de 81 contra 18 no Senado, e de 285 contra 144 na Câmara dos Representantes.

A dupla crise acabou por dar num dos momentos de maior consenso bipartidário dos anos Obama, com quatro quintos da câmara alta e dois terços da câmara baixa a concordarem que isto tinha que terminar.

Barack Obama, que para muitos tinha colocado em risco o resto do segundo mandato com esta dupla crise, venceu a toda a linha: ajudou a evitar o pior, manteve-se sempre concertado politicamente com a linha negocial que estava a ser seguida pelos líderes democratas no Congresso e voltou a ter em Nancy Pelosi, na Câmara dos Representantes, e sobretudo em Harry Reid, no Senado, dois aliados fiéis e eficazes, para contrapor uma oposição cega e, mais uma vez, irresponsável, da ala dura do Partido Republicano.

Os dados mostram como o Presidente sai como o grande vencedor: apesar dos riscos enormes que até ontem o sistema viveu, chantageado pela paralisação do Tea Party, Obama não cedeu no essencial (ao contrário do que tinha acontecido na crise do verão de 2011), tendo prevalecido a sua tese de que não era legítimo o que o outro lado estava a exigir.

Se é verdade que o ObamaCare continua a não ser uma lei popular, a questão é que, de tal modo isso foi usado de forma ilegítima pelos radicais durante esta crise, que o resultado foi este: duas semanas depois da paralisação, o número de americanos que defendem a implementação em vez de ter diminuído, aumentou.

Em vez de ter comprometido o que resta da sua presidência, Obama teve a vitória que precisava para ganhar um novo impulso: depois disto, passou a ter a certeza de que a Reforma da Saúde, em vez de ser «desfinanciada», será implementada.

Por outro lado, os serviços federais voltaram a ter o financiamento que necessitavam do Congresso e a questão da dívida, sendo profunda e complexa, não será um fantasma a ensombrar mercados e credores dos EUA, pelo menos até ao início de fevereiro.

Se nos lembrarmos que Obama chegou a ter a hipótese de aceitar um acordo bem mais frágil, que apenas apontava para um adiamento por seis semanas das duas questões e exigia mais alteração ao ObamaCare, temos que concluir que o Presidente e Harry Reid tiveram a estratégia certa.

Está tudo resolvido? Não, claro que não. Apesar do acordo ter sido mais largo no tempo e no alcance do que se previa até ontem, a verdade é que voltou a ser um adiamento no essencial. Mais um.

A Administração Obama só aprovou dois orçamentos no primeiro mandato. Vive desde o fim de 2009 neste jogo de adiamentos. Os grandes duelos ideológicos aumento de impostos/redução da despesas, com o fantasma da dívida («Fiscal Cliff») como pano de fundo mantêm-se por resolver.

Está lançada a purga no Partido Republicano. Será aceitável continuar a recusar o ObamaCare, depois do Presidente ter ganho todas as batalhas de legitimação nos últimos três anos e meio?

Entre os 18 senadores republicanos que votaram contra o acordo, estão três pretendentes presidenciais para 2016: Ted Cruz (Texas), Marco Rubio (Florida) e Rand Paul (Kentucky).

Por enquanto, os radicais perderam. Mas eles não vão desistir. Sentem ter «uma missão», em nome de «Deus e do povo americano».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca