Barack Obama vai apresentar, esta noite (madrugada em Lisboa) o seu plano de combate à ameaça do ISIS (Islamic State of Irak and Syria), agora mais conhecido por Estado Islâmico.

Não é apenas mais um discurso de um Presidente que chegou ao cargo, em grande parte, suportado por uma capacidade oratório invulgar. Será o ponto mais decisivo do segundo mandato presidencial de Obama.

E, possivelmente, será a última oportunidade que o Presidente dos EUA tem de evitar que o seu segundo mandato termine com a sombra do falhanço.

A ameaça do ISIS conseguiu mexer de tal forma com os espíritos dos americanos que colocou, em poucas semanas, sérios problemas à Administração Obama.

As pesquisas apontam para dados preocupantes para a posição do Presidente: sete em cada dez americanos considera «possível» que o ISIS ataque solo dos EUA se nada for feito; percentagem idêntica considera que Obama tem sido «demasiado cauteloso» na abordagem deste problema.

Sondagem do Wall Street Journal e NBC coloca a taxa de aprovação de Obama em mínimos de 40%. O sinal foi claramente dado: o tempo de «pensar a estratégia» passou. Há que agir e rápido, isto porque uma boa parte do sistema político (democratas incluídos) e a maioria da opinião pública aponta o dedo ao Presidente por ter demorado na resposta, dando espaço ao recrudescimento do horror do ISIS.

A vontade política do Presidente em avançar para novo plano em larga escala para o Médio Oriente seria muito pouco superior a zero. Só que, a este nível, há momentos em que a realidade ultrapassa agendas políticas ou princípios orientadores.

A visão de Obama para a política externa, nos últimos anos, tem sido a de «não fazer coisas estúpidas», numa perspetiva minimalista de quem foi o principal herdeiro político dos erros de George W. Bush.

Se esta nova crise no Iraque e na Síria é, em parte, consequência do falhanço americano na guerra de 2003, é verdade também que Obama, como sucessor de Bush, não foi capaz de gerir da melhor forma a retirada, permitindo que, no Iraque, se prolongasse um governo fraco, do xiita Nouri Al Maliki, que se mostrou impotente para travar a ameaça extremista sunita.

O momento, porém, não é de apontar culpas. É de agir.

E tendo em conta as informações que assessores da Casa Branca têm libertado nas últimas horas, há duas grandes ideias que irão dominar a intervenção do Presidente: Obama entende que não necessita da luz verde do Congresso (embora tenha marcado reuniões com os líderes das duas câmaras nas horas que antecedem a comunicação) e enquadra o seu plano numa «vasta coligação internacional», que obviamente abarca os países da NATO mas também aliados estratégicos e/ou pontuais na região.

Deverá envolver o agravamento dos bombardeamentos já iniciados nas últimas semanas. E a ação será definida e liderada pelos Estados Unidos, mas os EUA não vão sozinhos. Terão o apoio do Reino Unido, também da França e de outros países no quadro da NATO.

Não haverá, para já, «boots on the ground» (e daí não obrigar o Presidente a pedir autorização ao Congresso a «ir para a guerra»).

Mitch McConnell, líder da minoria republicana no Senado, discorda: «Obama devia procurar apoio para a sua ação militar. Seria do interesse dele e do interesse da nação que os representantes deste país soubessem ao pormenor o que vai ser feito».

E fora dos EUA e do arco atlântico? A Turquia será fundamental. E, claro, veremos nos próximos tempos essa ironia da história que é ver o Irão e a Síria da Assad, regimes xiitas (no caso de Assad, alauíta, ramo xiita), que têm, neste tabuleiro, em comum com os EUA o facto de estarem sob forte ameaça dos jihadistas sunitas dos ISIS.

A geoestratégia nunca é uma história com um fim previsível. Na verdade, nunca tem fim.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»