«Não acho que ele tenha mudado de opinião sobre a guerra. Acho que tem sido bastante consistente. Estava perto quando, em 2002, Obama fez o agora famoso discurso (não foi assim tão famoso na altura) opondo-se à intervenção americana no Iraque. E ele disse, na altura, que temia que viessem ao de cima as forças extremistas e a violência sectária e que se tornasse um foco de extremismo. E foi exatamente isso que aconteceu. E ainda estamos a lidar com os estilhaços desse erro. Ao mesmo tempo, ele apoiou a noção de que temos que ir atrás dos terroristas que atacaram os EUA no 11 de Setembro e sentiu que o Iraque iria ser uma distração a esse foco»

DAVID AXELROD, principal conselheiro de Barack Obama há uma década, entrevista a Jay Reed na MSNBC

Obama alarga o seu apoio junto da opinião pública e até nos seus aliados. A «destruição» do Estado Islâmico passou a ser a prioridade do atual momento da administração norte-americana.

Herói anti-guerra na eleição de 2008 (já não tanto na reeleição de 2012), Prémio Nobel da Paz em 2009, será que o 44.º Presidente dos Estados Unidos teve que fazer mudança de 360 grau na sua visão sobre a guerra?

Talvez nem tanto.

Chris Matthews, analista na MSNBC, comentou no «Hardball»: «Assumir-se como um Presidente de Guerra é uma transformação notável para um Prémio Nobel da Paz. Faz lembrar, de certo modo, a transformação bem famosa de Franklin Roosevelt, que nos anos 30 liderou em tempos de paz e nos anos 40 liderou a resposta na II Grande Guerra».

Matthews nota ainda: «Roosevelt assumiu essa mudança dizendo à imprensa e ao público que passou de Dr. New Deal nos anos 30 para Dr. Win The War, nos anos 40. E o que ele teve que mudar para fazer isso! A grande questão é: conseguirá Obama assumir de tal modo essa transformação? E será que o país o acompanha nessa necessidade?»

As sondagens parecem mostrar que sim. Sete em cada vez americanos exigia ao Presidente uma resposta mais dura e efetiva à ameaça do Estado Islâmico ¿ e isso terá sido decisivo para que Obama se decidisse por este plano ambicioso, que já ditou sérios recuos nas posição do EI no Iraque e na Síria, sobretudo com a destruição, por ataques aéreos, de refinarias e poços de petróleo, que constituíam forte financiamento aos terroristas sunitas.

Bill Clinton, último democrata a ocupar a Casa Branca antes de Barack Obama, analisa, em entrevista à ABC News: «O que se passou com as decapitações é horrível. Simplesmente horrível. O povo americano tende a julgar o presidente sobre se estamos mais fortes, mais protegidos e mais seguros. Por isso, acho que os americanos apoiam o que está a ser feito».

Visão bem mais crítica tem o senador Ted Cruz, do Texas. Um dos líderes do Tea Party, campeão do radicalismo de direita no Capitólio, Cruz acusa Obama de ter «demorado demais na resposta e de ter insistido, sem sentido, na noção de «nation building» no Iraque».

Em entrevista a Dan Balz, no Washington Post, Ted Cruz apontou: «Não creio que seja missão da América assegurar a construição de outra nação. Esta administração tem repetido erros na resposta sobre conseguir distinguir os tipos bons dos tipos maus. Na Síria isso já tinha acontecido há um ano».

Certo é que, no terreno, a coligação liderada pelos EUA conseguiu importantes avanços nos últimos dias. De tal modo que os jihadistas do Estado Islâmico têm sido forçados a oscilar para a fronteira turca, o que provoca novos problemas, com a fuga de milhares de sírios turcos.

Paralelamente, os receios de atentados de células do EI em grandes cidades europeias (assumido pelo primeiro-ministro iraquiano), reforçam a necessidade de se apostar na inteligência e nos serviços secretos. A escalada securitária em Washington, Nova Iorque, Londres e Paris pode estar a caminho.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»