«Os jihadistas sunitas, que tomaram grandes partes de território iraquiano e sírio, podem ser controlados»

General Martin Dempsey, chefe do Estado-Maior das forças armadas americanas

«Quanto mais Obama retardar a ofensiva, mais o ISIS ajusta as suas posições e mais difícil será reagir. Uma das decisões que ele tem que fazer é atacar o ISIS na Síria porque eles estão a avançar o equipamento capturado para lá e estão a batalhar lá e têm enclaves lá»

Senador John McCain, do Arizona

O «novo Iraque» de Obama promete ser bem mais difícil e sangrento do que a retirada das tropas, êxito aparente na primeira fase desta presidência, decorrência de promessa eleitoral que ajudou o atual inquilino da Casa Branca a ser eleito pela primeira vez, em 2008.

Se a «contenção» anunciada pós-Bush estava ao favor da corrente da opinião pública, o novo quadro na região anuncia-se bem mais complexo, com riscos enormes de redundar em novo banho de sangue.

Podia até ser tudo o que não era preciso agora, com as crises na Ucrânia e em Israel/Gaza ainda em fases de especial tensão.

Mas o que se passou nas últimas semanas, com o avanço do ISIS capaz de dar aos fundamentalistas sunitas o controlo de cerca de um terço do Iraque e de partes da Síria, exige resposta rápida.

Obama autorizou bombardeamentos cirúrgicos em zonas controladas pelo ISIS e isso, de acordo com as últimas informações, terá enfraquecido seriamente as posições do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS, no acrónimo anglófono).

Mas a ação americana surgiu tarde. O aumento brutal no número de vítimas mortais, com especial incidência na população cristã do Iraque e nos «yazidis», foi tornando o avanço do ISIS insuportável aos olhos dos ocidentais.

A decapitação do jornalista americano James Foley, amplamente difundida em vídeo de uma violência chocante, pode ser um «turning point» neste enorme problema. Uma espécie de «abate do avião da Malásia» para as posições russas na Ucrânia, versão ISIS no Iraque e na Síria.

Se parte da opinião pública americana se revia numa visão de «containment» da administração Obama, a urgência do «regresso», não com tropas no terreno mas ações militares cada vez mais agressivas, passou a ser dominante.

John McCain, adversário de Obama nas eleições de 2008, não se tem cansado, nos últimos dias, em pressionar o Presidente a agir de forma mais dura contra o ISIS e a alargar o seu raio de ação à Síria.

As chefias militares têm, de forma mais matizada, mostrado sinais de estarem prontas para isso. A leitura do general Martin Dempsey aponta para vantagens identificadas em travar o ISIS pela via dos bombardeamentos.

Ed Rogers, no Washington Post, postula: «Em política, a regra é 'quando estás em apuros, cria alguma agitação'. Embora o presidente tenha sido hesitante em usar a força, ação determinada no Médio Oriente, depois da execução nojenta do jornalista James Foley é um grande motivo para mostrar uma posição firme. O presidente pode ¿ e deve ¿ aproveitar o momento; mas este momento, como todos os momentos nos dias que correm, é perigoso e incerto».

Os EUA estão, pois, de regresso, e em força, à arena iraquiana. E serão obrigados a entrar, cada vez mais, com armas e até homens, no atoleiro sírio.

A vontade política desta administração será pouco mais do que zero, mas há momentos em que o «soft power» (por muito melhor que seja em situações de aparente normalidade) não chega.

Nunca é prudente desvalorizar o lado imprevisível das relações internacionais.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»