A decisão de fundo está tomada e só falta mesmo a ordem do Presidente para avançar.

Os Estados Unidos já têm planos preparados e estão a libertar informação que aponta para uma ação «limitada no tempo» (previsivelmente, entre dois a cinco dias) e que não prevê o envio de tropas no terreno, mas uma utilização da tecnologia a fim de atingir alvos cirúrgicos.

No Pentágono, já se entra em modo laranja: «Estamos preparados para agir e esperamos apenas a luz verde do Presidente», garantiu, em viagem ao Bahrein, o secretário da Defesa, Chuck Hagel.

Nos próximos dias, a Casa Branca tratará de enquadrar legal e politicamente a ação que, do ponto de vista militar, já

estará desenhada.

Barack Obama, que nunca foi um entusiasta de uma intervenção na Síria, terá sido convencido, nos últimos dias, com as «provas inegáveis» de uma violação da Convenção de Genebra, cometida pelo regime de Assad, no ataque de 21 de agosto passado, em bairros periféricos de Damasco.

No Congresso, a maioria republicana da Câmara dos Representantes é entuasiasta da ideia e está recetiva a um plano da Administração Obama: «Sr. Presidente, apresente-nos o seu caso para a Síria», lançou John Boehner.

Obama, Prémio Nobel da Paz em 2009, já mostrou estar mais do que confortável com ações militares. Desde que elas tenham um objetivo claro e mostrem eficácia. Por isso tem patrocinado o programa de «drones» no Afeganistão, sensível aos resultados de diminuição drástica de baixas humanas.

Por outro lado, convém não esquecer que o Presidente dos EUA foi reeleito em novembro passado com um promessas de redução significativa do orçamento militar, numa busca de racionalização de meios e objetivos.

Neste quadro, a questão que muitos colocam é: não será «off message» ir agora para a guerra? Não existirá o risco dos EUA se estarem a meter num novo Iraque ou num novo Afeganistão?

«Estamos a dizer, de uma forma clara e decisiva, mas de modo muito limitado, que parem com isto. Isso pode ter um impacto positivo na nossa segurança nacional a longo prazo», aponta Barack Obama, em entrevista ao programa «PBS News Hour».

O Presidente deixou a garantia de que o que está a ser preparado é uma «acção limitada, com procedimentos previstos, sem que se permita que se entre num conflito longo».

E sobre esse receio de que os EUA possam estar a iniciar uma nova aventura desastrosa no Médio Oriente, reforçou: «Deixem-me ser claro. Não é um novo Iraque. Sei que isso é uma preocupação para muita gente».

O argumento para avançar para a Síria foi a repetida violação da «red line» a partir da qual o regime de Assad seria alvo de uma intervenção militar internacional: o uso de armas químicas.



As evidência retiradas do ataque de 21 de agosto fizeram com que a inação fosse, neste ponto, mais arriscada do que uma intervenção: «Pode perder-se uma geração completa de seres humanos», avisa o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon.

A forma categórica como, há dias, John Kerry acusou a existência de «provas inegáveis e indesculpáveis» não deixa outra saída: a ação contra Assad estará por dias.

Dez anos depois da invasão do Iraque, muitos se lembraram da mentira das «armas de destruição em massa». Interessa, por isso, fazer a comparação: quando se avançou para o Iraque, as dúvidas eram muito maiores que a certeza e o argumento principal dividiu os principais países da NATO (EUA e Grã-Bretanha a favor, Alemanha e França contra).

O atual quadro é completamente diferente. Pode questionar-se se a «red line» deve ser traçada pelo uso de armas químicas (Hitler, por exemplo, nunca as usou e cometeu atrocidades maiores que as que Assad está a infligir ao seu povo), mas não faz sentido equiparar a mais do que questionável guerra do Iraque com a intervenção que se prepara na Síria.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»