A eleição de Rohani gerou uma nova etapa nas relações EUA/Irão. Durante a era Ahmadinejad, vigorou a ameaça da escalada nuclear.

A aproximação operada nos últimos meses, originada pelas lideranças políticas de Washington e Teerão, era vista com reservas por várias chancelarias.

O Acordo de Genebra pode ter mudado tudo. O Irão aceita recuar na dimensão do programa nuclear, a troco de alívio nas sanções.

Ricardo Alexandre, jornalista e autor do livro «Irão, o País Nuclear», considera que o que saiu de Genebra «foi um acordo que merece sempre ser designado com letra maiúscula».

«Apresenta vantagens diferentes para as partes, mas de extrema importância para todos e, especialmente, para o mundo», acrescenta o jornalista, em declarações ao «Histórias da Casa Branca».

«Para o Irão porque alivia as sanções internacionais que estão a sufocar economicamente o país, para as potências ocidentais porque conseguiram, pela via diplomática, forçar o entendimento, com uma dose de pressão política importante», nota Ricardo Alexandre, para depois acrescentar: «Para o presidente Rohani é também um triunfo importante, já que se isto tiver efeitos práticos na vida das pessoas terá mais força internamente para enfrentar as vozez conservadoras - que não serão poucas - que se têm oposto a esta progressiva aproximação a um patamar de relacionamento possível com o ocidente e, em particular, com os Estados Unidos.»

O ponto de viragem que permitiu que a tensão EUA/Irão, sempre com a ameaça nuclear sob pano de fundo, se aliviasse foi a eleição de Rohani: «Uma vitória do candidato apoiado por Ahmadinejad teria impossibilitado este acordo e já teríamos transformado numa não-solução toda aquela conturbada região. Com o que se tem conseguido diplomaticamente, aquela região do Médio Oriente (tendo em conta a influência do Irão) sobre o Hamas na Palestina e sobre o Hezzbollah no Líbano e na Síria sobre a população xiita, apesar de continuar a ser uma região altamente problemática, ainda não atingiu aquilo que designei anteriormente por não-solução. E quando falo em não-solução penso na inevitabilidade de uma guerra generalizada e de consequências devastadoras para a segurança da região e do mundo», nota Ricardo Alexandre.

O comportamento eleitoral no Irão mostrou que nem tudo está a tender para o mais negativo: «O mundo ainda tem gente sensata que impede com que cheguemos a esse patamar», observa Ricardo Alexandre.

As reações ao Acordo de Genebra foram de satisfação e otimismo. Do lado americano, mas também no regime iraniano. O líder supremo da República Islâmica do Irão, Ali Khamenei, «ayatollah» que corporiza o vértice mais duro e anti-americano, primeiro mostrou reservas quanto às intenções de negociação do presidente Rohani, mas acabou por se mostrar publicamente apoiante do acordo obtido na Suíça.

Em contrapartida, Israel faz o papel de «Cassandra». Netanyahu ficou furioso com a forma como a Administração Obama se empenhou nas negociações e sentenciou: «O que se concluiu em Genebra não é um acordo histórico, mas um erro histórico».

Para o autor de «Irão, o País Nuclear», «Khamenei mostra ser mais inteligente que o primeiro-ministro de Israel. Quem defende democracias ocidentais modernas e justas não defende uma república islâmica e, portanto, não legitima nem defende certas práticas da república islãmica e da sua liderança, mas Netanyahu seria bem inteligente se tivesse optado por um comentário mais cauteloso, ao jeito de quem espera para ver, tentando junto das potências 5+1 para que consigam que o Irão cumpra aquilo que ficou acordado. Israel é ou não um país nuclear? O que é que já submeteu a inspeções da AIEA? Compreendo no entanto o problema de segurança que rodeia Israel, embora discorde da forma como está a aprofundar o seu próprio isolamento.»

Quanto à posição de Obama, Ricardo Alexandre não tem dúvidas: «A Administração Obama foi crucial na obtenção deste acordo e vai capitalizar politicamente com isso».