A batalha por Kobani, cidade síria colada à fronteira com a Turquia, dirá muito sobre a capacidade que o autoproclamado «Estado Islâmico» terá de alargar o seu território.

Nas últimas três semanas, as ações aéreas dos EUA e seus aliados (sobretudo as monarquias árabes da região) sobre Kobani quintuplicaram.

Isso gerou baixas, alguma destruição de material bélico do EI, mas não teve a eficácia pretendida. Porquê? Porque a capacidade dos jihadistas penetraram nos territórios que pretendem conquistar e se envolverem nas populações locais, é muito significativa.

Kobani tem sido a prova de que ataques aéreos, sendo importantes, muito provavelmente não vão chegar.

Ao mesmo tempo, o desviar de atenções para Kobani pode ser um «canto de sereia» que facilita os interesses do EI noutros pontos estratégicos.

Martin Dempsey, chefe do Estado-Maior das forças armadas americanas e um dos principais defensores do envio de «boots on the ground» entre os conselheiros próximos do Presidente Obama, avisou em entrevista na ABC: «Eles estiveram a 20, 25 quilómetros do aeroporto de Bagdade. Se as forças do EI tivessem passado era num instante até o tomarem. Foi daquelas situações em que não podíamos esperar que eles "saltassem o muro". Tivemos que atuar, porque precisamos daquele aeroporto, nunca poderíamos permitir».

De todo o modo, o general Dempsey continua convicto de que o EI vai ser travado e que não conseguirá tomar Kobani: «Isso nunca irá acontecer». E recorda vitórias recentes no Iraque: «Erbil esteve quase a cair para as mãos deles e hoje está controlada.»

Mesmo assim, Dempsey avisa: «Travar o Estado Islâmico continuará uma tarefa muito dificil, pelo menos enquanto o governo do Iraque não conseguir dominar as maiorias sunitas em regiões que o EI controla. Não temos dúvidas de que, se eles puderem, vão voltar a cometer as atrocidades que já cometeram. Continuo a achar que poderá haver um ponto em que o uso de tropas no terreno será fundamental».

O impasse das últimas semanas, ditado pela ambiguidade de Erdogan (o presidente turco teme o avanço dos jihadistas sunitas para tão próximo da fronteira, mas recusa-se a ajudar implicitamente os interesses de Assad na Síria), teve agora uma ligeira mudança que pode beneficiar quem tenta travar o avanço dos radicais.

A Turquia vai deixar passar os curdos vindos do Iraque, que pretendem combater juntos dos curdos sírios, de modo a reforçar as forças de resistência, em Kobani.

Os «peshmergas», corajosos combatentes curdos que se espalham por zonas do Iraque, da Turquia e da Síria, têm sido os principais elementos no terreno, nesta «guerra híbrida» contra os jihadistas sunitas, e, nos últimos meses, até conseguiram algumas vitórias significativas sobre o Estado Islâmico (sobretudo desde que, do ar, as forças norte-americanas e aliadas intensificaram os bombardeamentos).

«Ajudamos as forças dos peshmergas curdos a atravessar a fronteira para chegarem a Kobani», confirmou o ministro dos negócios estrangeiros turco. «Nunca quisemos que Kobani caísse», insistiu Mevlut Cavusoglu.

Ou seja, mesmo continuando numa desesperante «abstinência de combate» da sua poderosa infantaria, a Turquia parece ter decidido ser uma «aliada passiva» da luta contra o Estado Islâmico.

Os guerrilheiros curdos em Kobani receberam também, nos últimos dias, armamento lançado pelos aviões norte-americanos.

Aviões de carga C-130 lançaram armas, munições e material médico fornecido pelas autoridades curdas do Iraque para permitir [às guerrilha curda] continuar a resistir aos avanços dos radicais. Ao mesmo tempo, a aviação norte-americana largou medicamentos e ajuda alimentar para a martirizada população de Kobani.

O Mundo é mesmo um lugar complicado. Sobre o Médio Oriente, então, o melhor mesmo é nem tentar rotular.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»