Barack Obama endereça esta terça à noite (9.00pm em Washington, duas da manhã em Lisboa) o seu sexto discurso sobre o Estado da União, antepenúltimo da sua presidência.

Em momento contraditório da sua presidência (os indicadores económicos muito favoráveis, mas as dificuldades internas de fazer aprovar a sua agenda nunca foram graves), Obama tentará, certamente, aproveitar o momento de maior carga simbólica de cada ano político na América para recuperar para si a bola do difícil jogo de forças em Washington.

O Presidente prometeu para 2014 um «ano de ação». A ideia deve dominar o tom do discurso desta madrugada. E surge como uma necessidade para um Barack Obama que começa em contagem decrescente na gestão política e mediática da sua passagem pela Casa Branca.

É certo que ainda faltam três anos para terminar o segundo mandato. Mas na política americana é mais importante o tempo psicológico do que a realidade do cronómetro: estamos a poucos meses das intercalares para o Congresso e logo a seguir começa a corrida a sério para as nomeações partidárias para as presidenciais de 2016.

O ano político de 2014, que na prática começa esta noite com o sexto «State of The Union» com a assinatura de Obama, será talvez a última grande oportunidade para o 44.º Presidente dos EUA deixar a marca legislativa que prometera alcançar.

Há quatro focos essenciais que Obama tem que vencer nos próximos meses e que, certamente, servirão de linhas força do seu discurso desta noite.

O ObamaCare, já transformado em lei, continua com problemas de implementação e não é querido pela maioria dos americanos; a Reforma da Imigração, em discussão no Senado, terá que ter uma proposta consensual até ao verão; o «gun control», maior falhanço legislativo da Casa Branca em 2013, terá um «final push» de risco nos próximos meses; o aumento do salário mínimo e o prolongamento dos subsídios de desemprego, exigidos pelos liberais e assumidos pelo Presidente, mantêm feroz oposição da direita «tea party».

É de esperar que Obama carregue nestas quatro ideias e puxe da sua legimidade presidencial esta noite. Mas o momento político não o favorece: as últimas sondagens dão-lhe pouco mais de 40% de taxa de aprovação e uma maioria dos americanos a discordar das suas decisões.

Mas não se pense que os opositores de Obama estarão em vantagem no State of The Union desta noite.

A história recente realça a especial dificuldade para quem se coloca na posição de reagir, logo a seguir, ao discurso do Presidente.

O caso mais visível foi, no ano passado, o de Marco Rubio. O jovem e ambicioso senador republicano da Florida, «presidential hopeful» para 2016, teve o pior momento da sua carreira política, quando se viu obrigado a parar por largos segundos e beber, em direto, para milhões de americanos, um copo de água.

Um momento que chegou a ser bizarro, na arena mediática altamente preparada da alta política americana.

Quatro anos antes, em 2009, o governador Bobby Jindal, então com esperanças de nomeação presidencial republicana para 2012, chegou a ser gozado por não ter conseguido adotar uma postura minimamente equiparável à do Presidente.

A democrata Kathleen Sebelius, então governadora do Kansas e hoje secretária da Saúde da Administração Obama, fez a última reação aos «State of The Union» dos anos Bush e Bob McDonnell, então governador republicano da Virgínia, fez a resposta ao «Estado da União» de Obama em 2010.

As intervenções de Sebelius e McDonell não entraram para a história (nem por boas nem por más razões). Mas a verdade é que, anos depois, estão hoje ambos em maus lençóis: Kathleen tem culpas no fracasso da implementação do ObamaCare, Bob está a contas com um escândalo de caráter.

Será caso para falarmos numa «maldição» das respostas ao Estado da União?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»