A contagem decrescente para se atingir o teto da dívida já mostra menos de um dia para que se possa evitar o desastre.

As últimas 24 horas constituíram a prova final da chantagem do Tea Party.

Cada vez mais pressionado para resolver a dupla crise (o «shutdown» está a provocar paralisações em áreas que apoiam os republicanos), John Boehner, o «speaker» da Câmara dos Representantes apresentou uma proposta que permitiria o aumento do teto da dívida e desbloquearia o «shutdown», mas tudo acabou numa autêntica humilhação.

Boehner expôs as linhas gerais da proposta (que implicava uma melhor definição da implementação do ObamaCare, mas não o adiaria) e, horas depois, teve que a retirar, tamanha foi a oposição que teve da ala direita do seu próprio partido.

Sem votos para garantir a aprovação, Boehner teve que recuar. Um golpe dramático, quando estamos tão perto do «deadline» do teto da dívida.

«A Câmara dos Representantes está agora oficialmente ingovernável. Numa derrota embaraçosa, Boehner desistiu da proposta que subiria o teto da dívida, acabaria com o shutdown e asseguraria alterações de pormenor no ObamaCare.

Os membros da House ligados à Heritage Foundation (ndr: instituição financiada pelo Tea Party) tiraram-lhe o tapete, considerando a proposta como «demasiado fraca» em relação à Reforma da Saúde de Obama», explica Benji Sarlin, na MSNBC.

E agora? Sem um acordo de fundo saído da Câmara dos Representantes, a última hipótese vem do Senado. Harry Reid e Mitch McConnell, os líderes de democratas e republicanos na câmara alta, estão a trabalhar em contra-relógio.

De acordo com o «Politico», há sinais de que esse acordo pode «estar por horas», mas tudo indica que venha a ser uma solução frágil, que basicamente adie a questão por algumas semanas ou meses, apenas para evitar que a América entre em «default». E mesmo em relação ao Orçamento, cuja falta de aprovação está na base do «shutdown», continua a haver mais dúvidas do que certezas.

A intenção de Obama e Boehner foi a de se atingir um acordo generalizado que resolvesse, de uma assentada, a questão do teto da dívida e o «shutdown». Mas a «bomba-relógio» ainda não desativada, e que tem data limita para esta quinta, dia 17, não é boa conselheira para acordos alargados.

Barack Obama tenta não perder a calma, por muito difícil que isso neste momento possa ser: «Acho que o meu registo, nestes anos de presidência, prova que estive sempre disposto a negociar com os republicanos. Aberto ao compromisso. Às vezes, a um ponto em que os democratas até ficaram zangados comigo, mas dei sempre prioridade aos interesses do país. O problema que temos neste preciso momento é que no outro lado, uma fação extremista, uma minoria que manifestamente não representa os republicanos, domina o Partido Republicano. E os republicanos mais razoáveis que estariam interessados em negociar sentem dificuldades».

Mais pragmatismo por parte do Presidente seria difícil, nesta entrevista dada a Diana Williams, à ABC: «O que não temos visto é uma vontade do outro lado de se envolver seriamente, de modo a que seja possível exercer a governação».

Em crises semelhantes (mas não tão graves nos riscos e na duração) no verão de 2011 e no final de 2012, muitos anteciparam uma «capitulação do governo Obama». A questão é o Presidente, mesmo assim, foi reeleito e parece que a legitimidade popular lhe dá uma proteção extra.

O problema é que a disfuncionalidade do sistema está cada vez mais visível.

Michael Lind, em artigo profundamente crítico no «Salon.com», acusa o Tea Party de estar fazer de todo o sistema «refém de exigências irresponsáveis». E aponta a urgência de se acabar com «o teto da dívida e a minoria de bloqueio («filibuster»), duas armas aritificiais do Congresso para paralisar a ação governativa do Presidente».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»