Obama prometeu uma parte final mais ideológica para deixar um legado de transformação na América.

Em alguns aspetos já o conseguiu: a aprovação da Reforma da Saúde foi o maior exemplo disso. Mas muito tem sido adiado, perante o clima de paralisação legislativa em Washington.

Na América, não é suposto ser o governo federal a assumir tão claramente a batalha contra as desigualdades sociais.

Para a mentalidade americana, essas desigualdades decorrem das diferenças de produtividade próprias de uma sociedade capitalista.

Mas a visão Obama para os seus oito anos de presidência é mesmo essa: deixar uma América mais justa e inclusiva.

A subida do salário mínimo, questão recorrente da batalha de argumentos entre os diversos atores políticos e sociais na Europa, é um tema até estranho na agenda americana.

A esse tema acresce a polémica dos apoios aos desempregados.

A Casa Branca tem pressionado a maioria democrata na Senado a aprovar uma lei que alargue os apoios a quem não tem emprego.

Essa necessidade decorreu da quantidade elevada de americanos (perto de 1,3 milhões) que, no final do ano, perderam o direito ao subsídio de desemprego, na sequência do final do prazo de dois anos que havia sido prolongado, no final de 2011, num acordo bipartidário que teve cedências das duas partes.

Obama tem apostado forte numa medida, para já de três meses, que o Senado terá que aprovar, que inclui duas grandes questões sociais: o aumento do salário mínimo e o alargamento dos apoios a desempregados.

Difícil encontrar tema mais fraturante do ponto de vista ideológico entre democratas e republicanos: Rand Paul, senador do Kentucky, um dos líderes da Direita radical, não fez a coisa por menos: «Não sou contra a existência de subsídio de desemprego como conceito, mas sou contra benefícios a longo prazo que potenciam um desincentivo ao trabalho».

Chuck Schumer, senador democrata de Nova Iorque, foi violento: «A posição de Rand Paul é insultuosa. Muitos dos meus colegas republicanos dizem: "oh, os apoios aos desempregados mantêm as pessoas fora do trabalho. Isso é insultuoso», repetiu Schumer.

Chuck, um dos principais impulsionadores de uma mais do que provável candidatura presidencial de Hillary em 2016, pertence ao grupo de senadores democratas que estão a tentar criar condições para a aprovação de uma lei que verta as posições do Presidente no problema das desigualdade.

Com Jack Reed (Rhode Island), Jeanne Shaheen (New Hampshire) e Sherrod Brown (Ohio), Schumer está a fazer tudo para recolher o apoio de pelo menos cinco senadores republicanos, de modo a evitar mais «filibuster» (minoria de bloqueio).

Apesar de ter maioria no Senado, os democratas não têm condições de governabilidade. Com 45 senadores, os republicanos têm votos suficientes para travar as decisões mais polémicas, uma vez que as regras do Senado exigem uma «supermaioria» de 60 senadores.

Até agora, só dois republicanos (o senador Dean Heller, do Nevada, e a senadora Susan Collins, do Maine) se mostraram abertos a votar a favor.

Mesmo os senadores republicanos que representam estados com elevado desemprego parecem continuar firmes contra a medida. É o caso do conhecido senador Lamar Alexander, que representa o Tennessee: «Não vou votar qualquer legislação antes de debater todas as soluções que ajudem verdadeiramente os americanos a procurarem um emprego», explicou Alexander, em declarações ao site «Politico».

Habituado a tornear os obstáculos dos republicanos, Obama voltou a ser muito duro para com o comportamento da oposição em torno de uma questão que se mostra urgente para 1,3 milhões de americanos: «Ajudar os desempregados ajuda também a criar empregos. Votar contra essa ajuda não cria qualquer posto de trabalho»

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»