«Se a Rússia continuar o que está a fazer durante as últimas semanas, a catástrofe pode afetar não apenas a Ucrânia. Isto não vai alterar apenas as relações entre a UE e a Rússia. Afeta a Rússia economicamente e politicamente»

Angela Merkel, chanceler da Alemanha

A crise da Crimeia está naquele ponto em que ninguém sabe dizer se a próxima etapa será melhor ou pior.

Como notou José Milhazes no «Blogue da Rússia», «ninguém diz querer uma solução militar para a situação em trono da Crimeia, mas o facto é que todos se estão a preparar para a guerra.»

Putin, autor da jogada militar e política de alto risco de mandar 16 mil tropas para a Crimeia, território ucraniano, não tem qualquer interesse em lançar a Rússia num conflito de larga escala.

A questão não é essa.

O que está em jogo na crise da Crimeia é uma relação de forças entre a Rússia, a NATO (leia-se, EUA) e outros «players» escondidos, como a China e até o Irão.

Ao olhar ocidental, seguindo os critérios dos acordos internacionais e das fronteiras desenhadas nos mapas, a Rússia de Putin criou um precedente: colocou o princípio da integridade territorial (a Crimeia faz parte da Ucrânia) abaixo dos valores estratégicos e até históricos e culturais.

A Revolução da Praça de Maidan levou Putin a tomar uma decisão radical.

Moscovo está a encostar o frágil poder de Kiev a uma escolha complicada: tão pouco tempo depois da saída de Ianukovich (que reclama estatuto de presidente mas teve que fugir para a Rússia), o novo poder em Kiev agarra-se à ajuda americana para estancar ameaça de extremismos.

Esta era a crise que Washington, Berlim e Bruxelas não queriam.

Na Casa Branca, Obama passou os últimos cinco anos a mudar as peças do poder militar americano da Europa para a Ásia.

No início do seu primeiro mandato, o Presidente dos EUA chegou a acreditar que teria em Putin, se não um forte aliado, pelo menos um parceiro estratégico no interesse comum de reduzir a ameaça nuclear (Tratado Start assinado em Praga, em abril 2010, entre Obama e o então líder russo Medvedev).

O fantasma Leste/Oeste parecia exorcizado e o problema da segurança europeia deixava de estar nas prioridades de Washington.

Quatro anos depois, a realidade é completamente diferente. O tal «presidente do Pacífico» que Obama parecia ser no primeiro mandato, essencialmente preocupado com a ascensão da China, terá que voltar a assestar baterias para a Europa.

A viagem do Presidente Obama à Europa, no final do mês, ditará os contornos da resposta americana a esta crise inesperada.

O confronto de poder mais visível desta crise é sem dúvida entre Obama e Putin, os EUA e a Rússia, o Ocidente e o Leste.

Pelo meio, está a nossa «Europa, querida Europa, liderada pela Alemanha de Merkel, a ter que ter um discurso dual, afetivamente mais ligada aos EUA e contratualmente ligada à NATO, mas ao mesmo tempo com fortíssimo envolvimento económico com a Rússia.

Por detrás deste cenário mais evidente, estão dois «atores sombra»: a China e o Irão.

O suposto apoio de Pequim a Moscovo, no ato de Putin de dominar a Crimeia, pode ter um efeito de exemplo. A China ameaça fazer movimentos paparecidos em zonas estratégicas da Ásia-Pacífico. O precedente da Crimeia pode ser útil para os chineses.

O Irão tem um interesse diferente. O clima de aproximação entre Obama e Rohani apanhou Putin de surpresa. A perspetiva de acordos comerciais, sobretudo na área da energia, entre Washington e Teerão, levou a Rússia a preservar a sua área de influência na Ucrânia.

Robert Gates, chefe do Pentágono no final dos anos Bush e na primeira metade do primeiro mandato de Obama, cauciona a atuação do Presidente, apesar de tantas críticas de «fraqueza perante Putin», lançadas pela Direita americana: «Obama tem feito o que deve o que deve ser feito. Putin também mandou tropas para a Geórgia e na altura ninguém disse que o Presidente Bush estava a ser fraco».