Nas primárias de 2008, Hillary Clinton parecia ter quase tudo para agarrar a nomeação democrata: partiu com uma vantagem de 30 pontos sobre Barack Obama e John Edwards e de mais de 40 sobre todos os outros pretendentes presidenciais do seu partido.

A noção de «inevitabilidade» em torno da então senadora por Nova Iorque, que já ocupara a Casa Branca por oito anos durante os dois mandatos do marido, apontava para uma corrida relativamente tranquila.

Só que essas primárias de 2008 estavam ainda mais talhadas a entrar para a história do que muitos pensavam. Não iriam selar, pela primeira vez, a nomeação presidencial duma mulher, mas revelariam algo ainda mais inédito: uma luta voto a voto, delegado a delegado, estado a estado, entre uma mulher e um negro.

O resultado final terá surpreendido ainda mais gente: Obama foi o nomeado e, meses depois, derrotaria McCain.

Poderia ter sido o fim do sonho presidencial de Hillary Clinton.

Dois assessores próximos assumiram, no livro «Game Change» dos jornalistas John Heilemann e Mark Halperin, 2010), que o campo de Hillary estava tão certo da nomeação e da consequente vitória em novembro que já havia gente do «staff» da candidata a preparar o gabinete de transição para uma futura Administração Hillary.

A aceitação do cargo de secretária de Estado no primeiro mandato de Obama foi o primeiro passo da segunda tentativa presidencial de Hillary.

Mesmo nos mínimos de popularidade de Obama no primeiro mandato (foram alguns), Hillary manteve taxa de aprovação muito elevada, bem acima dos índices revelados pelo Presidente.

Hillary passa, em 2014, por momento idêntico ao que Barack Obama atravessava em 2006: está a dois anos de ser, com fortes possibilidades, a próxima nomeada presidencial democrata.

O que deve fazer? Em ano de eleições intercalares para o Congresso, fará o mesmo que Obama há oito anos, aparecendo em campanha por candidatos democratas?

William Whalen, em artigo no «Foxnews.com», recorda: «Além de ter entrado na onda das campanhas dos democratas para essas intercalares, o então senador Obama lançou em 2006 o seu segundo livro».

«Não esperem ver em 2014 uma Hillary demasiado envolvida na campanha dos democratas. Não está no ADN dela ser um ícone dos liberais, numa fase como esta. Dará prioridade à gestão da sua corrida presidencial», prevê Whalen.

A dois anos do arranque das primárias (5 de janeiro de 2016, no Iowa), Hillary tem avanço tão grande nos primeiros estudos de opinião que se revela como o ás de trunfo da próxima corrida presidencial democrata.

Sondagem recente da Quinnipiac University dá quase 60 (!) pontos de avanço a Hillary: recebe 66 por cento das preferências, para apenas 8 do vice-presidente Joe Biden, 7 da senadora Elisabeth Warren, do Massachussets, e 3 do governador Andrew Cuomo, de Nova Iorque.

Se no início da corrida de 2008 a diferença parecia grande, desta vez é enorme. E parece apenas colocar uma dúvida: poderá Hillary abdicar de concorrer?

Os últimos sinais apontam para que ela vá mesmo avançar. Na verdade, já tem uma espécia de «campanha sombra» no terreno.

Nas redes sociais, há já vários grupos de apoio a «Hillary for President 2016», com um número muito elevado de adesões.

Democratas influentes como Charles Schumer (senador por Nova Iorque), Bill DeBlasio (novo «mayor» de NY) ou Nancy Pelosi (congressista pela Califórnia e líder da minoria democrata na House) já apelaram, em público, a uma candidatura de Hillary para 2016.

Desde a decisão de 2010 do Supremo Tribunal, o financiamento a um candidato presidencial fora das angariações da própria candidatura passou a ser ilimitado. Quer isto dizer que para se chegar à Casa Branca é preciso ter «SuperPacs» muito bem recheadas.

E Hillary, a esta distância, já tem uma «Ready for Hillary» com uma conta que já reúne mais de 1,5 milhões de seguidores no no Facebook e que partiu com a base de apoio da campanha Hillary 2008.