A ambiguidade turca é o problema central do atual momento da «campanha de contra-terrorismo» que o Presidente Obama anunciou para «destruir o Estado Islâmico».

As atrocidades desse autodenominado Estado Islâmico (que, na verdade, nem é um «estado» nem respeita a religião «Islâmica») não assustam só os norte-americanos, os europeus, os curdos iraquianos e sírios e as minorias cristãs na região.

A Turquia, país quase cem por cento muçulmano, com uma questão fundamental a travar com a vizinha Síria, nas regiões fronteiriças povoadas por curdos (e agora ameaçadas pelo avanço do proclamado EI), também está assustada com o que está a acontecer e seria suposto que estivesse empenhada em ajudar a «coligação» a impedir que os terroristas entrassem pelo seu território.

Ancara, note-se, tem a chave para travar o avanço dos jihadistas sunitas em Kobani. Mas, até agora, ainda não a quis utilizar.

E porquê?

Porque apesar de Erdogan, presidente com poderes excessivos para uma democracia, não gostar deste Estado Islâmico, a verdade é que ele vê Assad, o ditador responsável por uma guerra civil sangrenta que já dura há dois anos e meio na Síria, como inimigo ainda maior.

A Turquia foi o principal interessado num ataque americano à Síria de Assad, há um ano, na sequência da «crise das armas químicas». O problema é que, à última hora, esse ataque não aconteceu. Obama preferiu dar prioridade à sua noção de «contenção» e aceitou a negociação proposta por Putin.

Os americanos continuam a não gostar de Assad. Mas ele passou a ser um aliado improvável perante ameaça comum para EUA e Síria: este assustador Estado Islâmico.

Ora, Erdogan avalia as coisas de modo diferente de Obama e dos seus aliados europeus: para o líder turco, Assad não pode ganhar terreno na guerra civil que prossegue na Síria, à «boleia» da luta contra os jihadistas sunitas.

É um dilema típico das guerras: por vezes, um inimigo passa a ser aliado improvável. E há decisões aparentemente injustas ou até imorais que se tomam, por motivos estratégicos.

A conselheira de segurança nacional da Administração Obama, Susan Rice, tentou passar a ideia de que a coligação liderada pelos EUA para destruir o EI está a conseguir «construir consenso» na frente síria.

Em entrevista ao «Meet the Press», na NBC, Rice, antiga embaixadora dos EUA na ONU, garantiu que os turcos e os sauditas haviam autorizado o «uso de instalações militares em em território turco por parte das forças da coligação, americanas ou de outros países, de modo a que fossem desenvolvidas ações no Iraque e na Síria».

Mas a ambiguidade turca está longe de estar clarificada. Líderes militares de 22 países envolvidos em ações contra o EI reuniram-se na terça em Washington com o Presidente Obama.

Para lá da retórica política, a «construção de consenso» tem sido mais complicada no terreno, sobretudo porque a chave para travar os radicais sunitas do EI em Kobani está no uso de infantaria.

A partir do momento em que a estratégia de Obama passou por bombardeamentos em larga escala, o avanço do Estado Islâmico no terreno só pode ser derrotado por tropas da região.

No caso de Kobani, estamos a falar dos curdos sírios, dos curdos turcos e deveríamos estar também a falar das forças militares turcas, às ordens de Erdogan, que, por enquanto, se limitam a assistir, posicionadas, ao avanço dos extremistas do «califado», para indignação e desespero da população daquela cidade fronteiriça.

Enquanto a infantaria turca (a mais bem apetrechada da Europa continental, a que não conta com o Reino Unido) não avançar, a batalha de Kobani, que já dura há mais de um mês, correrá o risco de cair para lado do Estado Islâmico.

Se Kobani cair, ninguém sabe até onde chegará a ameaça do Estado Islâmico. O melhor mesmo é nunca sabermos.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»