O jornalista Antonio Spadaro afirma na obra «Papa Francisco - Temos de ser normais», que o pontífice «é vulcânico, gosta de entrar em diálogo, de abrir portas e janelas».

O livro, escreve o jornalista, é o «aprofundamento», da entrevista feita por si ao pontífice e que foi publicada em setembro do ano passado, simultaneamente, na La Civilità Cattolica e em outras 15 revistas jesuítas.

A entrevista é «o esboço fiável, revisto pelo Papa», mas «não entraram certos episódios, gestos, expressões» que o jornalista inclui agora no livro, assim como referências específicas a discursos, homílias e textos que Jorge Bergoglio escreveu quer como padre, quer como cardeal arcebispo de Buenos Aires.

Spadaro, que dirige a La Civilità Cattolica, afirma que «entrevistar o Papa Francisco é quase impossível», pois «as suas respostas originais a uma pergunta precisa raramente são breves».

«O Papa é vulcânico, gosta de entrar em diálogo, de abrir portas e janelas, de voltar atrás, mas, sobretudo, de entrar em dialética, recordando factos pessoais», afirma o autor.

Francisco - realça o jornalista - quando dialoga, «o seu raciocínio não se baseia em conceitos abstratos, sendo antes uma reflexão e uma permuta de vivências».

O jornalista descreve a entrevista, que decorreu na Casa de Santa Marta, no Vaticano, como «três tardes de diálogo», e para Spadaro, mais de que um feito jornalístico foi «uma grande experiência espiritual».

«Nesta edição definitiva», o autor afirma ter tentado «recuperar em forma de comentário tudo aquilo que se perdera, de modo a esclarecer mais a fundo os conteúdos da entrevista, não só do ponto de vista cultural e pastoral, mas também humano e biográfico».

«Inseri também uma espécie de bastidores da própria entrevista», acrescenta o autor, que atesta ter desenvolvido «uma hermenêutica das palavras do Papa Francisco à luz do denso tecido dos textos anteriores à sua eleição, e também das suas intervenções como pontífice».

Ao longo da conversa, são abordadas temáticas como o papel da Igreja, a sua história, o Concílio Vaticano II, a leitura da Bíblia à luz da cultura contemporânea, e de cariz biográfico do papa argentino, que se define como «um pecador».

«Sou um pecador para o qual o Senhor olhou», afirmou Francisco, o primeiro jesuíta a assumir a liderança máxima da Igreja Católica.

O Papa afirmou que ser jesuíta «quer dizer reconhecer-se pecador, mas chamado por Deus para ser companheiro de Jesus Cristo».

Quanto às suas referências artísticas e literárias, o papa, na conversa com Spadara, citou uma passagem da ópera «Turandot», de Puccini, afirmou apreciar autores como Dostoievski, Holderlin e Gerard Manley, gostar do pintor Caravaggio e, sobre Chagall, afirmou: «Também Chagall me fala, com a sua Crucifixão branca».

Mozart está entre os seus compositores favoritos, assim como Bach e Wagner. No cinema, cita Federico Fellini, autor da produção que mais terá gostado, ¿A estrada¿ (¿La strada¿), no qual vislumbra ¿uma referência implícita a S. Francisco [de Assis]¿ filme com o qual se identifica.

O último capítulo é dedicado à oração, revelando Francisco o seu quotidiano e experiência: ¿Rezo o Ofício todas as manhãs. Gosto de rezar com os Salmos. A seguir, celebro a Missa. Rezo o terço. Aquilo que prefiro, acima de tudo, é a Adoração [ao Santíssimo] ao fim da tarde, mesmo quando me distraio ou penso noutras coisas, ou até adormeço a rezar¿.

«Este é Jorge Mário Bergoglio», conclui Spadaro que, quando pela primeira se encontrou com Papa, a dado passo da conversa este lhe afirmou: «Temos de ser normais. A vida é normal».

O livro, publicado pelas Edições Paulinas, inclui o discurso do papa à comunidade dos escritores de La Cività Cattolica, como noticia a Lusa.