Foi com um ligeiro e ténue engolir em seco que Felipe ouviu de Jesus Posada, presidente do Congresso de Deputados, as palavras que cresceu para escutar: «Fica proclamado rei de Espanha don Filipe de Borbon e Grécia, que governara como rei Felipe VI. Viva o rei, Viva Espanha». E assim se fez História nos nossos dias, mesmo aqui ao lado, e assim Espanha tem um novo Rei: Felipe VI.

Com a seriedade previsível com que se educa um futuro Rei, Felipe VI fez jus ao que aprendeu durante 46 anos e permitiu-se apenas um leve sorriso num rosto que encerrava a responsabilidade de liderar um país em que a monarquia já conheceu tempos bem mais áureos. Cabe ao novo Rei e à nova Rainha, a plebeia Letizia, assumir a nova geração e não deixar morrer um encanto que outrora o povo espanhol teve pelo seu Rei.

Letizia, que se permitiu durante a cerimónia sorrir levemente com mais frequência do que o marido, não escondeu a leveza no rosto quando o congresso aplaudiu a Rainha Sofia, a monarca mais popular entre os espanhóis que a apoiam depois das diferentes polémicas que viveu ao lado de Juan Carlos I, como aliás manda a educação de uma Rainha. Ao lado de Letizia, o futuro personificado na Princesa Leonor e na Infanta Sofia, que seguiram o comportamento exemplar exigido pelo momento.

O futuro da monarquia espanhola foi aliás «o tema rei» do discurso de Felipe. Nas primeiras palavras que dirigiu ao seu povo, o Rei salientou que a Coroa é o «símbolo da unidade de Espanha», destacando que a «unidade não é uniformidade. Nesta Espanha cabem distintas formas de sentir-se espanhol». Felipe VI fala assim para todos os espanhóis, com a consciência de que nem todos estão ao seu lado, mas lembrando que em Espanha cabem todos os sentimentos e sensibilidades. «Nesta Espanha unida e diversa, cabemos todos».

Felipe não deixou também de mostrar que este será um reinado longe do escândalo de corrupção que abalou em muito a monarquia. O Rei que jurou a Constituição espanhola sublinhou: «A Coroa deve buscar a proximidade com os cidadãos e saber ganhar o seu apreço, respeito e confiança. Para isso, deve velar pela dignidade da instituição, preservar o seu prestígio e observar uma condutar íntegra, honesta e transparente».

O Rei que assume o cetro em tempos conturbados deixa claro os seus compromissos: «Estas são, senhores, as minhas convicções sobre a Coroa que, desde hoje, assumo: um Monarquia renovada para um tempo novo. E enfrento a minha tarefa com energia, com ilusão e com o espírito aberto e renovador que inspira os homens e mulheres da minha geração».

Na longa mensagem que leu no congresso, Felipe teve ainda palavras para quem foi afetado pela crise económica, não esquecendo que os problemas do país e o descontentamento vão bem mais longe do que a corrupção familiar ou a caçada real. «Quero expressar a minha proximidade e solidariedade a todos os cidadãos que foram atingidos com rigor da crise económica e foram feridos na sua dignidade».

Felipe apela a uma esperança de um «tempo novo» que parece ter chegado a grande parte do povo que, à parte de alguns protestos e de algum desencanto, parece ter posto Juan Carlos para trás e encheu as ruas de Madrid para acenar à renovação.

Na varanda, os sorrisos quebraram a seriedade e entre os acenos houve mais uma vez beijos: do filho para o pai, do marido para a mulher e até as pequenas princesas perderam a pose e mostraram ser crianças algo enfadadas com a solenidade da cerimónia. Já antes, quando Felipe recebeu do Rei a faixa real, vimos o cumprimento de um pai e um filho com o orgulho quase plebeu por entre os rostos. Afinal, a emoção do momento toca a todos. Aos Reis e aos povos, mais ou menos, monárquicos.