Há mais de 300 anos que a Escócia foi anexada ao Reino Unido, mas pode estar prestes a divorciar-se. O referendo vai ter lugar esta quinta-feira. Edimburgo está ao rubro, com as sondagens bem renhidas. Parece impossível prever o desfecho. E se a Escócia conseguir mesmo a independência?

A história pode lembrar a disputa de Espanha e da Catalunha, mas tem contornos diferentes. Inglaterra sempre reconheceu o direito da Escócia à autodeterminação e autorizou o referendo escocês. Em Madrid, é exatamente ao contrário.

Imaginemos, então, que hoje já é dia 19 e o «sim» ganhou. Na ressaca da vitória, levantam-se muitas questões, cujas respostas podem vir a representar uma viragem no plano político britânico e europeu:

A Escócia mantém-se na UE?

O jornal «Guardian» diz que sim, quase de certeza. «Mas não vai ser tão fácil ou rápido como o primeiro-ministro, Alex Salmond, gostaria». Já a Comissão Europeia entende que será extremamente difícil, senão impossível. É que a adesão de um Estado saído de um país membro tem de ser aprovada por todos os outros. Mas, por outro lado, «vai ser muito difícil para Bruxelas ignorar o resultado de um referendo pacífico, livre e democrático» como este, realça o «Guardian». A Escócia já obedece no dia-a-dia às diretrizes europeias. Daí que a integração como Estado independente seria sempre mais fácil.

A libra mantém-se como moeda?

Não há uma resposta definitiva. São quatro as possibilidades: manter a libra no seio de uma união monetária formal; usá-la, mas de forma informal - unilateralmente - o que faz com que não tenha um protetor em caso de choque financeiro; aderir ao euro, o que pode levar tempo; ou criar uma nova moeda, o cenário mais caro, mas que oferece maior controlo sobre a política monetária. O chefe do Governo escocês é a favor da primeira e também da partilha do Banco de Inglaterra com todo o Reino Unido, mas os três principais partidos políticos em Westminster são contra.

A rainha continua a ser chefe de Estado?

A curto prazo, pelo menos. A independência implica elaborar uma nova Constituição, mas isso não quer dizer que a Escócia passe a ser uma República. Pode realizar-se outro referendo só sobre essa tutela diplomática.

E David Cameron, demite-se?

O próprio já respondeu que não. Embora não veja nenhum problema legal ou constitucional, a verdade é que Cameron perderia 1/3 do controlo territorial e 1/10 do seu povo. «Seria indiscutivelmente um líder diminuído de um país diminuído», sintetiza o mesmo jornal.

Há outras mudanças práticas. É o caso das fronteiras e da circulação entre países. O mais provável é um acordo de livre circulação. No entanto, as diretrizes políticas sobre a imigração poderão constituir um obstáculo. Já em matéria de petróleo, a Escócia é «dona» de cerca de 90% das reservas do Mar do Norte, o que é muito importante tanto em temos de emprego, como de receitas fiscais. O uísque e a energia eólica são outras jóias desta coroa.

Assim, será que a Escócia teria - será que tem - pela frente um futuro próspero se rasgar as amarras que a prendem a Londres? Há quem considere que sim, e quem receie o contrário:

« Tenham medo, muito medo. (...) Podem até achar que a Escócia se pode tornar num novo Canadá, mas é bem provável que acabe como uma Espanha sem luz do sol», adverte o nobel da Economia, Paul Krugman. Na sua coluna no «The New York Times», escreve que a combinação da independência política com uma moeda partilhada «é a receita do desastre». Bancos de investimento como o Goldman Sachs temem períodos prolongados de incerteza para os dois países. E para a UE, que iria levar por tabela.

As profecias do descalabro não convencem toda a gente. Os casos da Irlanda e da Dinamarca mostram, segundo o «The Independent», que «uma Escócia independente é perfeitamente viável». O dinheiro do petróleo pode não durar para sempre, mas há o trunfo da produtividade e da população letrada.