Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, os serviços secretos dos Estados Unidos recrutaram alguns dos mais perigosos terroristas da Al Qaeda, presos em Guantánamo, para os converter em agentes duplos.

Com centenas de presos a chegar à base naval militar dos EUA em Cuba, a CIA desenhou um programa que foi executado entre 2003 e 2006, refere a agência de notícias Associated Press (AP). O plano, batizado como Penny Lane (a famosa canção dos Beatles), tinha como objetivo infiltrar os presos, pagos pela CIA, nas células terroristas em que participavam nos respetivos países e convertê-los em informadores do Governo norte-americano.

A uma pequena distância dos escritórios administrativos do centro de detenção de Guantánamo, a CIA construiu oito pequenos centros que foram batizados como «Marriot». A adesão de espiões ao programa deu-se por causa das vantagens oferecidas, que contrastavam com o regime espartano imposto nas celas dos presos comuns.

Quando os detidos começaram a chegar a Guantánamo em 2002, a CIA viu uma oportunidade sem precedentes de tratar de identificar os líderes terroristas. Os serviços secretos prometeram a alguns desses terroristas liberdade, segurança para as famílias e milhões de dólares procedentes das contas secretas da agência.

Os candidatos eram transferidos das celas comuns da prisão para cómodas habitações em Penny Lane, desenhadas para que os réus se sentissem mais num hotel do que numa cadeia. Daí, o apelido «Hotel Marriot», onde inclusive se fornecia material pornográfico pedido pelos presos.

De acordo com a investigação da AP, dezenas de prisioneiros foram avaliados, mas só alguns conseguiram cumprir os requisitos da CIA para o programa, que funcionou de 2003 até 2006.

«Embora a cifra de agentes duplos recrutados tenha sido pequena, o programa foi suficientemente significativo para atrair a atenção do presidente George W. Bush», indica à AP um ex-alto funcionário da CIA. Barack Obama também teve conhecimento do plano da CIA, após assumir o cargo em 2009.

Apesar do alto investimento, não se sabe se esses agentes duplos chegaram a oferecer informação de valor para a espionagem norte-americana ou se, por causa dela, algum membro de Al Qaeda terá sido capturado. Com o tempo, alguns agentes deixaram de passar informação e desapareceram do radar da CIA.

Os ex-funcionários da CIA, entrevistados pela AP, reconhecem que a Al Qaeda sempre levou em consideração que uma espionagem daquele tipo podia ser feita. Por isso, desconfiavam de todos os que já tinham passado por Guantánamo.