A divulgação de um sistema de vigilância vasto e capaz de interceptar qualquer conversa telefónica ou mail em tempo real chocou os EUA e alguns europeus. Mas a dimensão da indignação de alguns países europeus terá ficado aquém do esperado. O jornal Le Monde explica o caso francês. Na realidade, Paris já sabia que os EUA usavam o sistema PRISM para vigiar tudo e todos e, para surpresa de muitos, faz o mesmo.

O jornal revela que possui provas de como funciona o sistema que tem por base a Direcção-Geral da Segurança Externa (DGSE), o serviço de espionagem francês. O Le Monde diz mesmo que «todas as nossas comunicações são espiadas», desde «mails, sms, registos telefónicos, acesso a Facebook, Twitter e outras redes sociais». Os dados são armazenados durante anos, em três pisos nas caves da DGSE, e obtidos através da captação dos sinais electromagnéticos emitidos de computadores e telefones.

O Big Brother francês, irmão dos serviços dos EUA, é ilegal e não obedece a qualquer controlo, escreve o jornal. O sistema, que também espia as ligações entre França e outros países, será do conhecimento dos políticos franceses, no entanto, o segredo da utilização é a regra, alegadamente, entre todos. Ainda assim, a investigação do Le Monde permitiu encontrar referências ao sistema de vigilância em alguns documentos do Parlamento francês, onde é admitido um «progresso», desde 2008, nos dados captados e na sua utilização pelos espiões. Os deputados vão ainda mais longe e recomendam o reforço da capacidade da vigilância.

O sistema de vigilância tem como objectivo a monitorização de conversas, no entanto, não tanto para saber o que cada um diz, mas sim para saber «quem fala com quem». A «base de dados gigante» pode ser consultada não só pelas seis agências de inteligência e segurança, como também pela própria polícia.

Os dados recolhidos pela DGSE permitem saber a vida de milhões de assinantes, identificando informações como quem telefona, o local da chamada, a data, a hora. O mesmo acontece com os mails e a navegação na Internet. O jornal denuncia ainda que a informação recolhida permite desenhar gráficos das conexões das pessoas durante anos. O resultado é uma espécie de diário digital de cada um que permite identificar alterações no comportamento e eventualmente solicitar formas de vigilância mais evasivas, como as escutas.

O dispositivo é, obviamente, importante para lutar contra o terrorismo e os crimes económicos, mas segundo o Le Monde, a utilização da vigilância vai muito além destas duas áreas criminais. Os triliões de dados são armazenados num super-computador, cuja a existência foi admitida pelo director dos serviços, desde 2006, Bernard Barbier, que declarou: «É provavelmente o maior centro de computação na Europa, depois do Inglês». O super-computador que lida com dezenas de milhões de gigabytes emite calor suficiente para carregar as baterias dos aquecedores do edifício, escreve o jornal. A França está no top 5 em termos de poder informático, atrás dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Israel, e China.

A falta de reação inicial por parte do governo francês depois das revelações de Edward Snowden, foram rapidamente corrigidas quando surgiram as novas revelações de que os EUA tinha espiado a União Europeia, incluindo a embaixada francesa em Washington. François Hollande declarou que estas práticas deviam «parar imediatamente», suspendendo algumas negociações entre os dois países até existirem explicações. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, explicou ainda que a França não espiou as embaixador dos EUA porque entre «países aliados» estas «não o tipo de coisas que deve acontecer».