O número, até agora final, de 78 mortes causadas pelo descarrilamento em Santiago de Compostela, Galiza, esconde a tragédia real que bateu à porta de 80 famílias. O jornal El País conta na sua edição desta sexta-feira algumas das histórias de como a morte bate à porta e abala a vida de quem parte e de quem fica.

Uma mulher de 80 anos sobreviveu ao desastre, mas carrega agora o peso da morte do neto de 23 anos que com ela viajava e que criou desde os seis anos depois de ter ficado órfão. A idosa vive e enfrenta agora o funeral de um neto, depois de ter enterrado um filho.

Manuel Suarez Roseberry tinha 57 anos, era de Compostela e agente comercial. Sempre viajou de carro ou de avião nas suas deslocações a Madrid. Fatidicamente, na última quarta-feira decidiu-se pelo comboio que o levou a morrer a poucos quilómetros de casa.

Para muitas das famílias o dia de ontem foi o de mais profundo desespero. A difícil identificação das vítimas mortais mergulhou famílias inteiras na angústia irrespirável de não saber se filhos, esposas, maridos, avós e pais estavam vivos. As redes sociais foram o primeiro auxílio para muitos e foi de lá que chegaram muitas das respostas.

A irmã de Carolina Garrido, uma jovem de 18 anos que saiu de Ourense para Santiago, pediu ajuda pela Internet para saber o que tinha acontecido à sua irmã. Recebeu resposta de internautas que lhe enviaram fotos de sobreviventes para que a pudesse localizar. Com o romper da manhã, recebeu a confirmação da morte.

A família de Verónica passou a noite à procura dela. Às onze da noite de ontem foi o irmão, que com os olhos de inchados de tanto chorar, surgiu à porta do Hospital de Santiago para anunciar que a jovem tinha sido encontrada, em coma, mas viva através do aliança de casamento gravada, a única pista para a identificar. Verónica era a última ferida que estava por identificar.

Outros há que se entregaram à desgraça. Thomas Lopez Lamas, da Coruna, tinha a mulher e os dois filhos a viajar no comboio. Na quarta-feira à noite revelou no Facebook que o filho, um jovem de 22 anos, tinha perdido a vida no acidente. Pouco depois soube que a mulher tinha também sucumbido à tragédia. A filha, a pequena Laura, sobrevive ainda no Hospital.

Para além dos pequenos exemplos da dimensão do horror que se abateu em Compostela, fica a reação do povo galego, de quem ao estar tão perto do inferno não conseguiu ficar quieto. O pedido de sangue dos hospitais foi respondido em massa e em poucas horas havia já reservas a mais. Médicos, enfermeiros e auxiliares interromperam férias para auxiliar. Nas pensões e residenciais as famílias dos sobreviventes foram hospedadas gratuitamente e os taxistas transportaram as famílias sem cobrar um euro.



Nos tempos de hoje, a tecnologia permite que a memória do momento fique. Para lá da morte fica também a vida, que um dia, esperançosamente, voltará a quem sobreviveu.

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