A pequena cidade de Nucla, no sudoeste do Colorado, nos EUA, outrora florescente devido a uma grande atividade das minas de urânio, é hoje um lugar que, à primeira vista, foi esquecido. O semáforo e o hospital mais próximos estão a duas horas de distância. Das salas de aulas do liceu ecoam as vozes de apenas algumas dezenas de alunos e a rua principal está cheia de edifícios que ficam vazios ao fim da tarde. Com uma taxa de pobreza de quase 20%, Nucla necessita de postos de trabalho, um benefício económico que permanece fora de alcance. Mas uma coisa, pelo menos, não falta na cidade: uma arma em cada casa, exigida por lei.

A cidade, que não é a única nos Estados Unidos da América com tal particularidade, é objeto de uma grande reportagem do jornal «The Washington Post», que integra um projeto intitulado «Gun Wars: The Struggle Over Rights and Regulation in America» ( «Guerras de Armas: A luta pelos Direitos e pela regulação na América»), produzido por iniciativa do Carnegie-Knight News21, um projeto nacional de jornalismo de investigação que envolve os melhores estudantes de jornalismo dos EUA e com sede na Escola de Jornalismo e Comunicação Social Walter Cronkite, da Universidade Estadual do Arizona.

A lei

Em maio de 2013, o Conselho da Cidade de Nucla (uma espécie de Assembleia Municipal) elaborou a Ordem de Proteção à Família, que determina que cada chefe de família deve possuir uma arma de fogo. O decreto visa com isso precaver a gestão de emergências e a segurança geral de uma cidade com uma população de menos de 700 pessoas.

Inspirada numa lei semelhante à de Kennesaw, na Geórgia, que existe desde 1982, o decreto para a cidade de Nucla contempla várias isenções: os que têm alguma deficiência física ou mental que impeça a utilização de uma arma de fogo; qualquer pessoa condenada por um crime; aqueles que não podem pagar uma arma; e objetores de consciência.

A polícia local nunca foi convocada para ir de porta em porta verificar se todos têm uma arma. A maioria das pessoas já tinha uma, de qualquer maneira. É, por isso, uma lei totalmente inaplicável, algo que o Conselho da Cidade entende, escreve o «The Washington Post».

«Tudo começou como uma piada»

Richard Craig, administrador do Conselho da Cidade de Nucla, revela ao «The Washington Post», que tudo começou, de certa forma, como uma piada. Craig conta que ficou chateado quando, no início de 2013, os legisladores estaduais começaram a discutir medidas mais rígidas para o controlo de armas. Na reunião seguinte da assembleia Richard Craig sugeriu de repente que se implementasse um decreto de arma obrigatória. «As pessoas disseram que é uma boa ideia, e eu disse: "uau"», explica Craig com uma risada.

Aos 74 anos, Richard Craig ainda gosta de caça, um passatempo que compartilha com a maioria dos vizinhos. «Esta é uma comunidade que se dedica à pecuária e à caça e toda a gente já tem armas», afirma, explicando que a lei não muda nada, exceto, talvez, chamar um pouco a atenção dos meios de comunicação.

«Foi mais ou menos para defender os nossos direitos como proprietários de armas. Eu não estava à procura de qualquer alteração ou notoriedade», diz Craig. «Foi só para dizer, que nós temos armas. É assim», acrescenta.

Bill Long, outro membro do Conselho da Cidade, foi o único que votou contra o decreto, mas esclarece que não foi por não gostar de armas, mas sim por causa dos excessos do Governo. «Não há diferença entre o Governo dizer que podemos ter armas ou que não podemos ter armas», explica.

Para Bill Long, que cresceu com armas e aprendeu a respeitá-las como se fosse, digamos, um carro, ter uma arma faz parte da vida numa cidade irrevogavelmente ligada à natureza como Nucla. E só ele tem «cinco ou seis», remata.