O professor Reza Aslan, autor de «O Zelota», afirma que Jesus Cristo foi um «zeloso revolucionário», um «judeu politicamente consciente», sobre o qual «há apenas dois factos históricos sólidos»: ter liderado um movimento judaico na Palestina e a crucifixação.

Segundo Aslan, que leciona História das Religiões na Universidade da Califórnia, Jesus, tal como outros, envolveu-se «na agitação religiosa e política da Palestina do século I», e «tem poucas semelhanças com a imagem do pastor pacífico cultivada pela comunidade cristã primitiva». «Porque é que os autores dos evangelhos se esforçaram tanto por moderar a natureza revolucionária da mensagem e do movimento de Jesus», questiona-se Aslan, nesta obra editada pela Quetzal.

«Há apenas dois factos históricos sólidos acerca de Jesus de Nazaré: que foi judeu e liderou um movimento popular judaico na Palestina, no início do século I, e que Roma o crucifixou», por o ter feito, atesta Aslan.

Para o autor norte-americano de ascendência persa, Jesus de Nazaré terá liderado um movimento em tudo análogo a outros do seu tempo, que visavam o derrube do domínio de Roma sobre aqueles territórios, como foi o dos Zelotas, os liderados por Simão, filho de Giora, por Simão, filho de Kokba, ou por Judas, o Galileu, sendo que «a imagem que emerge da Palestina do século I é dum tempo carregado de energia messiânica».

A mais antiga referência não bíblica a Jesus é do historiador judeu Flávio Josefo, no século I, que escreveu que um sumo sacerdote, Anás, condenou ilegalmente à morte «Tiago, irmão de Jesus, aquele a quem chamam messias», cita Reza Aslan, autor de «O Zelota ¿ a vida de Jesus da Nazaré».

Afirma o autor, que a expressão - «aquele a quem chamam messias» - é «de escárnio», mas, em 84d.C., Jesus «era amplamente reconhecido como fundador de um novo e duradouro movimento».

A outra referência é do século II, pela mão dos historiadores Tácito e Plínio, o Jovem, que mencionam Jesus, mas dando poucos pormenores. Sendo assim «resta-nos, por isso, a informação que podemos retirar do Novo Testamento», alertando o autor que este começou a ser escrito por diferentes autores, «cerca de duas décadas depois da morte de Jesus».

O primeiro documento é a «Carta aos tessalonicenses», de Paulo, primeiro de um conjunto de epístolas, mas o apóstolo «mostra uma extraordinária falta de interesse pelo Jesus histórico».

Por outro lado, em relação aos evangelhos, «com a possível exceção de Lucas, nenhum dos que temos foi escrito pela pessoa que lhe deu nome», garante o autor.

As obras que compõem o Novo Testamento, escreve Reza Aslan, são «pseudoepígrafas», isto é, são atribuídas a um autor, mas não escritas por ele, o que era comum na Antiguidade, e «não se devem considerar de modo nenhum falsificações».

O evangelho segundo Marcos foi escrito cerca de 40 anos depois da morte de Cristo, com base numa «coleção de tradições orais e talvez um punhado de tradições escritas.

Reza Aslan afirma que os cristãos ficaram insatisfeitos com os escritos do evangelista e «ficou à responsabilidade dos sucessores de Marcos, Mateus e Lucas, desenvolver o texto original» e, deste modo, «atualizaram a história, juntando-lhe as suas próprias tradições exclusivas».

O autor chama a atenção a biblioteca de escrituras não canónicas (não reconhecidas pela Igreja), redigidas nos séculos II e III, «que dão uma perspetiva muito diferente da vida de Jesus da Nazaré», e incluem entre outros textos atribuídos a Tomé, Filipe, Maria Madalena e o «livro secreto de João».

Sobre o seu livro, Aslan afirma que é «uma tentativa de recuperar o Jesus antes do cristianismo», e adverte que o Jesus que mostra «pode ser o que não esperamos [e] certamente não será o Jesus que a maioria dos cristãos modernos reconheceria».