Esta segunda-feira registou-se uma manifestação à porta do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, por causa do incêndio que destruiu um arquivo com mais de 20 mil peças representantes de 200 anos de história do país.

Várias centenas de manifestantes protestaram , alguns atirando pedras, contra a incúria dos poderes públicos, após o incêndio que destruiu esta madrugada o Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Cerca de 500 estudantes e investigadores ligados ao museu, a maioria dos quais vestidos de negro, concentraram-se em frente aos escombros ainda fumegantes do edifício para “abraçar” o antigo palácio imperial do século XIX. Antes, manifestantes lançaram pedras aos polícias e forçaram a entrada do recinto do Museu, gritando “Fora Temer!”, dirigindo-se ao Presidente brasileiro.

“Não basta chorar. É preciso que a população se indigne. Uma parte desta tragédia poderia ter sido evitada”, declarou Alexandre Keller, diretor do museu.

As centenas de manifestantes, na maioria estudantes, juntaram-se na Quinta da Boa Vista, pouco depois das 11h (hora brasileira) e deslocaram-se em direção ao Museu Nacional, percurso de cerca de 600 metros. Quando se aproximavam foram impedidos pela polícia que foi obrigada a usar gás pimenta para evitar a aproximação. Duas horas depois, os manifestantes lá conseguiram chegar à praça onde está a estátua de Dom Pedro V, entrada do Museu Nacional.

Ao longo do dia foram chegando cada vez mais manifestantes, que foram sendo convocados por movimentos sociais e entidades estudantis para a manifestação chamada “Luto pelo Museu Nacional! Em defesa da universidade pública!”.

No local do incêndio, muitos estudantes choram e lamentam ao ver o cenário da destruição do Museu Nacional. A pesquisadora e professora de História Regina Dantas é uma delas, que trabalha como historiadora desde 1994. 

Nós vamos recuperar esse palácio, mas o acervo que estava aqui dentro é irrecuperável. Vocês vêem lá em cima as deusas, representando o espaço das musas, que é o museu, elas estão intactas. Para dar força para a nossa população tão sofrida com a história, com as ciências, nesse momento...vocês desculpem, mas não sei o que dizer, parece um pesadelo. Eu dormi, pensando que era um pesadelo, que eu ia acordar", disse, tentando enumerar as perdas.

Alguns manifestantes tiveram mesmo de ser assistidos após os desacatos com as autoridades.

 UNESCO lamentou “a maior tragédia dos últimos tempos para a cultura brasileira” e denunciou “a fragilidade dos mecanismos de preservação dos bens culturais” no país.

Considerado o maior museu de História Natural da América Latina, o Museu Nacional, que celebrou em junho o seu bicentenário, albergava cerca de 20 milhões de peças de valor incalculável e uma biblioteca de mais de 530.000 títulos.

Entre as peças inestimáveis transformadas em cinzas, está uma coleção egípcia, uma outra de arte e de artefactos greco-romanos, coleções de paleontologia – que incluíam o esqueleto de um dinossauro encontrado na região de Minas Gerais, bem como o mais antigo fóssil humano descoberto no Brasil, “Luzia”.

Um dos únicos vestígios preservados foi o enorme meteorito com mais de cinco toneladas, que continua em frente à entrada, agora sozinho no meio de cinzas e paredes calcinadas.

Após ter passado uma boa parte da noite a combater o incêndio, que deflagrou no domingo à noite, os bombeiros tentaram salvar o que podia ser salvo.

“Pensamos que objetos guardados num cofre no terceiro andar deverão estar intactos”, afirmou Gustavo Lourenço, funcionário do museu.

Antônio Gambine Moreira, responsável do planeamento e finanças da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que gere o museu, indicou que algumas peças que estavam na cave puderam ser resgatadas, mas sublinhou que se trata de uma parte insignificante do acervo, referindo “uma perda incomensurável”.

“Eu vim dizer adeus”, comentou um estudante que participava numa manifestação, antes de abraçar um colega, ambos comovidos até às lágrimas.

“É o Brasil inteiro que desaparece em fumo, é uma catástrofe indescritível para aqueles que defendem a história e a cultura”, declarou Valeria Rivera, técnica de restauro, que trabalhava no museu desde 2012.

O editorial do jornal O Globo condenava uma “tragédia previsível”: “A degradação do museu e a sua transformação em cinzas fazem soar de forma estridente o alarme para a necessidade de redefinir as prioridades orçamentais”.

Mergulhado numa dívida pública abissal e em sucessivos escândalos de corrupção, o Brasil, que sai timidamente de uma recessão histórica, efetuou nos últimos meses muitos cortes orçamentais nas áreas da investigação, da cultura e da ciência.

O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, reconheceu que “a tragédia poderia ter sido evitada” e que, no museu, “os problemas se foram acumulando ao longo do tempo”.

Há três meses, por ocasião do bicentenário, o Museu Nacional obteve um financiamento de 21,7 milhões de reais (cerca de 4,51 milhões de euros) do banco público BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) para contribuir para o restauro do edifício.

Em 1978, um incêndio dramático tinha já destruído o Museu de Arte Moderna do Rio, carbonizando nomeadamente algumas telas de Picasso e Miró.